quarta-feira, 30 de dezembro de 2009


Estou a traduzir, porque me apetece (é tão bom ter tempo...):

Michael Hirsch
Subversão e Resistência
Dez teses sobre arte e política
(artigo publicado no nº 1 da revista Inaesthetic que a Patrícia trouxe de Frankfurt)

Pretendo abordar neste artigo a questão das diferentes interpretações de arte contemporânea dentro de um contexto político e teórico mais alargado ou, mais precisamente, no contexto da evolução da teoria política e dos sistemas políticos no ocidente. Irei concentrar-me na relação entre fenómenos políticos e fenómenos culturais: o modo como a descrição que fazemos de nós próprios é formatado por discursos culturais e políticos. Como se define a arte contemporânea a si própria? Como se contextualiza? Temos para isso de analisar sobretudo a politização da arte e dos discursos culturais em conjunto, a fim de reconhecermos a forma graças à qual estes discursos se tornaram (ou foram tornados) políticos. Sem este reconhecimento as nossas tentativas de desenvolver teorias e práticas críticas ou subversivas não terão uma base intelectual satisfatória.
Protesto, resistência, recusa e subversão são nomes utilizados para descrever um instinto comum de oposição e crítica. Trata-se de um instinto com um certo poder unificador. Muitos de nós concordam instintivamente com a necessidade, bem como a beleza, de gestos negativos em reacção a ordens sociais vigentes. O que fazemos com esse instinto e como trabalhamos com ele? Como ligamos esta posição simbólica às estruturas vigentes da realidade social? Podemos desenvolver modelos para a descrição de posturas críticas e culturalmente subversivas (o que significa também éticas) no contexto social que simbolicamente contradizem? Será que modelos culturalmente subversivos podem reflectir a sua própria realidade e função tanto dentro como fora do campo em que agem? Ou será que acabam por cair num voluntarismo político que é, neste momento, e do meu ponto de vista, o modelo dominante de uma auto-descrição social “crítica” presente no discurso cultural e político contemporâneo?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Friends will be friends

Thomas Hirschhorn & Marcus Steinweg

Steinweg em Amesterdão

The subject is that which is capable of inventing a sense within the desert of non-sense that is the space of its freedom and impotence. The experience of freedom cannot be separated from the experience of impotence. Because the subject's freedom is absolute, its impotence is total. The absolutism of freedom has already connected with total impotence. Impotent freedom moves the subject toward an absolute limit. As the subject of a borderline experience, it realizes its freedom by affirming its impotence as the condition of its freedom. Instead of competing with documentation and historical labour, art is an opening toward the future. It is always a matter of tailoring names for the future, of giving form today — here and now — to the anonymity of tomorrow. The task of art includes the courage to give answers to questions posed by the future, to questions that do not pre-exist. There is no art beyond such an answer. There is no art beyond the wager of creation, of bringing forth something new. No matter how much what is new has to rely on what already exists, no matter how much it remains embedded within a material texture (as demanded by the Aristotelean perspective), the new nevertheless thoroughly redefines this texture; it thoroughly defines it anew until it appears within it incognito, anónymos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

2009 A-listers!!!!! you D-listers can die now... the year isn't ovah!


CH-CH-CH-CHANGES: Artists Talk About Teaching
Entrevistas de John Reardon aos artistas Michael Craig-Martin, Tobias Rehberger, Christoph Schlingensief, Erwin Wurm e.o.


2012 de Roland Emmerich
A mulher sem cabeça de Lucrecia Martel 

e também
Up de Pete Docter
A troca, de Clint Eastwood  
Happy go lucky, de Mike Leigh


Cappuccetto Rosso de René Pollesch, Volksbuehne

e também
Playing Ensemble Again and Again de Ivana Müller, Hebbel am Ufer (HAU)



Gentlemania, Kevin Blechdom
2.0, The XX

e também
Temporary pleasure, Simian Mobile Disco
Femina, The Legendary Tiger Man
It's not me it's you, Lily Allen
Beauty killer, Jeffree Star

I am not a robot, Marina and The Diamonds

e também
Two weeks, Grizzly Bear
Monster, Kevin Blechdom
Audacity of huge, Simian Mobile Disco
Bad blood, Simian Mobile Disco
Crystalised, The XX
Shelter, The XX
When I'm with you, Best Coast
Not fair, Lily Allen
Bad romance, Lady Gaga


A moment of citizenship, Irina Botea
curadoria: Maria Ines Rodriguez 

National Museum of Contemporary Art, Bucharest

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Le Roi Soleil

Le Soleil considère notre spectacle Padam Padam un des meilleurs de l'anée.
Il faut respecter Le Soleil, après tout, il est le Roi de l'Univers!
well... sort of...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

"I had a girl. Donna was her name" or "Oil Ain't (Definitely!) All JR!!!!!!!"

JR Ackerley quirky masterpiece, My Dog Tulip about a relationship between the writer and his "Alsatian" bitch in the 1940's and 1950's gives me a way to think through my dissent [unconditional love]. Tulip was the great love of JR Ackerley's life. Ackerley honored that love from the start by recognizing his impossible task - to wit, first, somehow to learn what this dog needed and desired and, second to move heaven and earth to make sure she got it.
In Tulip, rescued from her first home, [JR] Ackerly hardly had his ideal love object. He also suspected he was not her ideal of loved one. The saga that followed was not about unconditional love, but about seeking to inhabit an inter-subjective world that is about meeting the other in all the fleshly detail of a mortal relationship. Barbara Smuts, the behavioral bianthropologist who writes courageously about intersubjectivity and friendship with and among animals, would approve. No behavioral biologist, but attuned to the sexology of his culture, [JR] Ackerly comically and movingly sets out to find and adequate sexual partner for Tulip in her periodic heats.
(...) Tulip mattered and that changed them both. He also mattered to her, in ways that could only be read with the tripping proper to any semiotic practice, linguistic or not.
The misrecognitions were as important as the fleeting moments of getting things right. [JR] Ackerley's story was full of the fleshy, meaning making details of wordly, face-to-face love. Receiving unconditional love from another is a rarely excusable neurotic fantasy; striving to fulfill the messy conditions of being in love is quite another matter. The permanent search for knowledge of the intimate other, and the inevitable comic and tragic mistakes in that quest, commands my respect, whether the other is animal or human, or indeed inanimate, Ackerly's relationship with Tulip earned the name of love.

in THE COMPANION SPECIES MANIFESTO by Donna Haraway (courtesy of JMVM)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009


CANT - Ciclo Artes e Novas Tecnologias
Reservas: 232 400 920

terça-feira, 24 de novembro de 2009


Chegámos há hora e meia atrás ao visitante cem mil deste blogue...
oh joy....

24 November

ALFA WIRELESS, Tema, Volta, Ghana

O visitante cem mil veio do Gana, e dá-me ganas de saber mais...
a cidade é Tema, uma cidade portuária, e tal informação leva-me mais longe e dá-me ganas de saber o tema que a pessoa do Gana procurou neste blogue. Tema fica na região do Volta e vai na volta o tema foi Tema como em tempos o título de um dos nosso espectáculos foi Título. Tudo muito tautológico portanto...
A companhia da internet chama-se Alfa... que é coisa que eu hoje não vou apanhar, apesar de até ir do Porto a Aveiro...

Anyway... congratulations mr/mrs Ghanian person... You won a free ticket to every show we will ever present anywhere in the world... If we ever go to Tema, Volta, Ghana, we'll surely let you know on this blog.


Workshop Dramaturgia
com José Maria Vieira Mendes

no Teatro Viriato
4ª e 5ª das 18h30 às 21h30;
Sábado das 18h às 20h

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Spaghetti oil oil oil... Iuhu!!

Final Episode - Final Scene: The Showdown (Oil Ain't All, J.R....)

Who came first?

Pioneers! O Pioneers!

Come, my tan-faced children,
Follow well in order, get your weapons ready,
Have you your pistols? Have you your sharp-edged axes?
Pioneers! O pioneers!

For we cannot tarry here,
We must march my darlings, we must bear the brunt of danger,
We the youthful sinewy races, all the rest on us depend,
Pioneers! O pioneers!

O you youths, Western youths,
So impatient, full of action, full of manly pride and friendship,
Plain I see you Western youths, see you tramping with the foremost,
Pioneers! O pioneers!

Have the elder races halted?
Do they droop and end their lesson, wearied over there beyond the seas?
We take up the task eternal, and the burden and the lesson,
Pioneers! O pioneers!

All the past we leave behind,
We debouch upon a newer mightier world, varied world,
Fresh and strong the world we seize, world of labor and the march,
Pioneers! O pioneers!

We detachments steady throwing,
Down the edges, through the passes, up the mountains steep,
Conquering, holding, daring, venturing as we go the unknown ways,
Pioneers! O pioneers!

We primeval forests felling,
We the rivers stemming, vexing we and piercing deep the mines within,
We the surface broad surveying, we the virgin soil upheaving,
Pioneers! O pioneers!

Colorado men are we,
From the peaks gigantic, from the great sierras and the high plateaus,
From the mine and from the gully, from the hunting trail we come,
Pioneers! O pioneers!

From Nebraska, from Arkansas,
Central inland race are we, from Missouri, with the continental blood intervein'd,
All the hands of comrades clasping, all the Southern, all the Northern,
Pioneers! O pioneers!

O resistless restless race!
O beloved race in all! O my breast aches with tender love for all!
O I mourn and yet exult, I am rapt with love for all,
Pioneers! O pioneers!

Raise the mighty mother mistress,
Waving high the delicate mistress, over all the starry mistress,
(bend your heads all,)
Raise the fang'd and warlike mistress, stern, impassive, weapon'd mistress,
Pioneers! O pioneers!

See my children, resolute children,
By those swarms upon our rear we must never yield or falter,
Ages back in ghostly millions frowning there behind us urging,
Pioneers! O pioneers!

On and on the compact ranks,
With accessions ever waiting, with the places of the dead quickly fill'd,
Through the battle, through defeat, moving yet and never stopping,
Pioneers! O pioneers!

O to die advancing on!
Are there some of us to droop and die? has the hour come?
Then upon the march we fittest die, soon and sure the gap is fill'd.
Pioneers! O pioneers!

All the pulses of the world,
Falling in they beat for us, with the Western movement beat,
Holding single or together, steady moving to the front, all for us,
Pioneers! O pioneers!

Life's involv'd and varied pageants,
All the forms and shows, all the workmen at their work,
All the seamen and the landsmen, all the masters with their slaves,
Pioneers! O pioneers!

All the hapless silent lovers,
All the prisoners in the prisons, all the righteous and the wicked,
All the joyous, all the sorrowing, all the living, all the dying,
Pioneers! O pioneers!

I too with my soul and body,
We, a curious trio, picking, wandering on our way,
Through these shores amid the shadows, with the apparitions pressing,
Pioneers! O pioneers!

Lo, the darting bowling orb!
Lo, the brother orbs around, all the clustering suns and planets,
All the dazzling days, all the mystic nights with dreams,
Pioneers! O pioneers!

These are of us, they are with us,
All for primal needed work, while the followers there in embryo wait behind,
We to-day's procession heading, we the route for travel clearing,
Pioneers! O pioneers!

O you daughters of the West!
O you young and elder daughters! O you mothers and you wives!
Never must you be divided, in our ranks you move united,
Pioneers! O pioneers!

Minstrels latent on the prairies!
(Shrouded bards of other lands, you may rest, you have done your work,)
Soon I hear you coming warbling, soon you rise and tramp amid us,
Pioneers! O pioneers!

Not for delectations sweet,
Not the cushion and the slipper, not the peaceful and the studious,
Not the riches safe and palling, not for us the tame enjoyment,
Pioneers! O pioneers!

Do the feasters gluttonous feast?
Do the corpulent sleepers sleep? have they lock'd and bolted doors?
Still be ours the diet hard, and the blanket on the ground,
Pioneers! O pioneers!

Has the night descended?
Was the road of late so toilsome? did we stop discouraged nodding on our way?
Yet a passing hour I yield you in your tracks to pause oblivious,
Pioneers! O pioneers!

Till with sound of trumpet,
Far, far off the daybreak call-hark! how loud and clear I hear it wind,
Swift! to the head of the army!-swift! spring to your places,
Pioneers! O pioneers!

Walt Whitman, Leaves of Grass

Oil ain't all, J.R.?

"Come my tan-faced children,
Follow well in order, get your weapons ready,
Have you your pistols? have you your sharp-edged axes?
Pioneers! O pioneers!

For we cannot tarry here,
We must march my darlings, we must bear the brunt of danger,
We the youthful sinewy races, all the rest on us depend,
Pioneers! O pioneers!

O you youths, Western youths,
So impatient, full of action, full of manly pride and friendship,
Plain I see you Western youths, see you tramping with the foremost,
Pioneers! O pioneers!

We debouch upon a newer mightier world, varied world,
Fresh and strong the world we seize, world of labor and the march,
Pioneers! O pioneers!"

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

18th to the 21st of November, Théâtre de l’Aire Libre- Saint Jacques de Lande, Rennes, France

 foto: Susana Pomba

Padam Padam

Leurs spectacles décalés, iconoclastes, les distinguent sur la scène artistique lusophone. Collectif d’acteurs performers, Teatro Praga interroge les images de notre temps, dans un langage contemporain – tant sur le plan visuel que sonore – et par des spectacles d’une vitalité débordante.
Padam Padam s’inspire des films catastrophes, ces films qui racontent le désastre (écologique, biologique, nucléaire, climatique, etc.), la fin d’un monde. La figure du héros, de ses adversaires, des politiciens, le scientifique, la suite et le remake, la leçon finale, sont autant d’archétypes passés au scalpel subversif de Teatro Praga.

mais informações aqui

terça-feira, 17 de novembro de 2009

É hoje! E oferece-se recompensa a quem achar o ZMVM na foto!


Porque é um “disaster movie”, porque acabou de estrear, porque estou nos States, não resisti e lá fui, sala meio cheia, tivemos direito a recepção privilegiada pelo casal dono do cinema, a mulher volta e meia gritava “all right!” e “iuhu!” e ele distribuía uns brindes (porta-chaves e t-shirts e posters 2012) aos “lucky few” cujo número de bilhete era sorteado. Até que
Ela Now, are you ready for the end of the world?!
Nós Yeaaaah!
Ela All right! Iuhu!
E 2012 começa.

O protagonista (com quem não pude deixar de me identificar), distraído escritor de fraco sucesso (o seu único livro não terá vendido mais de 500 cópias – eis a razão da irmandade), com a profissão paralela de motorista de um milionário russo, ex-boxeur, que se faz acompanhar de uma jovem loira (neste aspecto fico a perder porque nunca conduzi uma limusina), deixou fugir aqui há uns tempos a sua esposa, uma americana olhos verdes e franja em poupa (ainda se usa disto!) que partiu para outra porque ele não largava as teclas do computador – e ela abdicou de tanta coisa pela família e os dois filhos... Ora acontece que a senhora encontrou entretanto a felicidade com um cirurgião plástico que ainda para mais arranja tempo para a família e gosta das crianças, apesar de, segundo parece, não satisfazer sexualmente por aí além. É um tipo porreiro, pode dizer-se, gosta dos putos, faz panquecas para o pequeno-almoço, tá-se bem. Chama-se Gordon, também queria uma família com ela, até porque tem jeito, mas aquilo não parece estar a dar (ele gosta de foder em supermercados e ela não vai na conversa – hélas).
Quando a coisa rebenta, vamos já com meia-hora de filme. Estivemos na Índia, na Casa Branca, numa cimeira G8, o tempo passou depressa e damos por nós com esta família alargada (escritor, duas crianças, mulher da franja e Gordon o cirurgião plástico) a bordo de uma limusina a fugir de arranha-céus a desfazerem-se e crateras gigantes a abrir por todos os lados. A eles vão juntar-se o milionário russo ex-boxeur, a sua loira e um segurança, o Sasha (entre Nicolaj e Sasha optaram pelo segundo nome) que sabe pilotar aviões (o cirurgião plástico, embora pouco esperto em situações de crise, dá uns toques na condução de aeronaves).
A maldade do argumento está, como em todos os filmes catástrofe, nas escolhas que são feitas, ou seja: quem é que morre? E não estou a falar das escolhas nas mortes das personagens secundárias ou simbólicas (Presidente dos Estados Unidos e da Itália, o monge tibetano no Evereste, o pai do Dr. Cientista americano ou os milhões de figurantes), mas sim do grupo restrito que nos conduz pelo filme, ou seja, a família.
Comecemos pelo óbvio: o milionário ex-boxeur russo. Ok. Não é boa peça, já viveu bem, é egoísta, bruto, mau pai, mas ainda tem um sentimento nostálgico por uma senhora ruiva anafadita e feiinha que deu à luz os seus dois gémeos, e sabe muito bem que a loira o trai com o seu guarda-costas piloto, enfim, não é totalmente mau, serve para uns momentos de humor, mas dentro dos vários candidatos é o mais aceitável. Ainda para mais morre a salvar os filhos, o que lhe fica bem.
A segunda vítima, mais óbvia, ainda que relativamente surpreendente, é a loira, a tal que anda com o milionário e com o piloto guarda-costas Sasha (esse morre bem cedo) e que por acaso até fez uma operação às mamas com o cirurgião plástico Gordon, não porque quisesse mas porque o Sasha a pressionou (não lhe chegava). Morte terrível a desta jovem, depois de salvar o seu caniche (vá lá) e de ter feito um manguito ao milionário. Ainda cheguei a pensar que ficava ela com o Gordon cirurgião plástico para abrir caminho à reconciliação dos ex, mas qual quê: morte por doloroso afogamento.
A terceira morte do grupo, a última, é a do próprio do Gordon cirurgião plástico que arrisca a vida para salvar os restantes. E com esta morte a reconciliação dos pais separados vê-se desimpedida de obstáculos, o que lhe retira o dramatismo, pois no fundo até é uma boa notícia. Os miúdos gostavam dele, mas entretanto no meio das aventuras o pai escritor aprendeu umas coisas, tornou-se mais pai, mais atento aos filhos e esposa, mais familiar, mais herói também, largou o computador, de maneira que o outro já não está a fazer nada no filme e toca a matá-lo numas rodas dentadas gigantescas (provavelmente a morte mais cruel destas três, apesar de não ter direito a sangue – aliás neste filme catástrofe, como em muitos outros, não se vê uma gota de sangue… ou estaria eu distraído?).
Analisando então estas três mortes, resultado de três escolhas dos argumentistas, poderemos concluir, no que à narrativa familiar diz respeito, os seguintes pontos:
1. Não faças operações plásticas. Seja como médico, seja como paciente.
2. Nunca cases com uma mulher divorciada e com filhos. Trata de encontrar a tua mulher e construir a tua própria família. Por outras palavras: get a life!
3. Antes de morreres, sê um herói (vais ver que custa muito menos).

É por isso que discordo em absoluto com aqueles que dizem que o argumento dos filmes catástrofe não interessa para nada. Claro que interessa. E só é bom se conseguir ser tão divertido quanto a acção e os efeitos especiais.

Mas do argumento 2012 há mais a concluir. É que, para além da narrativa individual, familiar, social, para além da pequena história, um filme catástrofe dedica-se igualmente a uma narrativa colectiva, política, que no final se cruza com a familiar para em conjunto ditarem a moral da história.
O G8 é personagem no épico 2012 e os que melhor se comportam são os presidentes (e não as nações, atenção) dos Estados Unidos e da Itália (!), visto que são os únicos que, podendo, não abandonam a população e se deixam ficar abdicando do luxo das arcas de Noé providenciadas pelos chineses (quem mais consegue construir em 4 anos os barcos que irão albergar os sobreviventes? os eficientes chineses, claro está).
O presidente dos Estados Unidos (versão Obama um pouco mais velho – rezam as crónicas que chegou a estar escrita uma versão Hillary) junta-se às operações de salvamento e morre engolido por um tsunami. Já o italiano junta-se aos católicos numa reza colectiva em terras do Vaticano, falecendo esmagado, com a sua esposa e os seus dois rebentos, pela arquitectura papista.
Os russos parecem maus mas acabam por se portar bem mais para o final e os africanos e latino-americanos não existem e portanto o seu desaparecimento não é trágico (a morte da não-existência não é morte). Apesar de tudo, ficamos a saber no epílogo, será em África, berço da humanidade, que tudo recomeçará. Africanos nem vê-los, mas lá chegarão os europeus e asiáticos para repovoar, num neo-colonialismo que rima com outros séculos.
Os indianos são esmagados, mesmo que a descoberta do mal que aí vem tenha sido feita por um deles, um sábio cientista amigo do Dr. Cientista americano que, em condições económicas difíceis e trabalhando numa mina bem funda e sob temperaturas altíssimas, descobre que o Sol se descontrolou.
Nesta macrovisão (confusa e inconsequente, Graças a Deus), 2012 propõe finalmente uma ideia (provavelmente A Ideia) desencadeada por uma decisão que urge tomar na última meia-hora de filme, depois de uma das arcas, destinada aos milionários mecenas que pagaram o seu bilhete e assim subsidiaram a construção deste projecto de salvação da humanidade, não ter sido reparada a tempo: deixamos entrar nas Arcas, que estão prontas a partir, os que andaram a suar para as construir (proletariado) e os que pagaram a sua construção (milionários mecenas) ou fechamos as portas e ficamos a vê-los morrer?
Depois de um discurso inflamado do Dr. Cientista americano, cujo convincente argumento é “Como vamos poder olhar uns para os outros no futuro recordando para sempre que o nosso renascimento assentou num acto cruel e egoísta”, o G8 amolece e o povo (ricos e pobres) pode entrar. Assim se parece dar a este final, que é também um recomeço, a esperança de uma humanidade “civilizada”, uma humanidade assente na solidariedade. E é então que se pode concluir:
1. Os americanos não são todos bons mas há uns que sim e esses valem muito.
2. Os homens não são boa gente mas há uns que sim e alguns desses morrem e outros não.
3. Os continentes pobres não existem e a Oceânia também não.

Resta, para a despedida, e já depois de abandonarmos a sala, somar estes três pontos aos outros dois mencionados em cima para obter o resultado final:
Não faças operações plásticas porque os americanos não são todos bons mas há uns que sim e esses valem muito, seja como médicos, seja como pacientes, embora os homens não sejam boa gente e a Oceania também não, portanto, antes que uns morram e outros não, sê um herói (vais ver que custa muito menos), trata de encontrar a tua mulher e construir a tua própria família e lembra-te que os continentes pobres não existem. Por outras palavras: get a life!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

From the wild wild west

when the shadow of the grasshoper
falls across the trail of the field mouse
on green and slimey grass as a red sun rises
above the western horizon silhouetting
a gaunt and tautly muscled indian warrior
perched with bow and arrow cocked and aimed
straight at you it's time for another martini

escrito na parede de um velho bar de são francisco.

domingo, 15 de novembro de 2009

“There are low, wide angles featuring their boots and spurs, big close-ups, pistols in holsters, and the endless prolongation of the moment before the guns are drawn. For Leone, what counts is what goes on before. It’s this moment – when the gunfighters’ eyes lock – which he stretches, longer and longer, in each successive movie. The action itself – the guns drawn, the bullets hit – is over in a couple of seconds. The villain may stagger around, spitting blood. The showdown, not the gunfight, was the key moment of the film.” Alex Cox, 10,000 Ways to Die – A Director’s Take on The Spaghetti Western

A propósito disto já aqui foi postado (a 18 de Agosto) o final de Public Enemy (a morte de James Cagney que dura e dura…) e a propósito disto o showdown de um dos meus favoritos: Once upon a time in the west.

Once upon time in the west - Final showdown

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Hoje na Cinemateca em Lisboa

Dia de ante-estreias André Godinho.
Às 21h30.
Três filmes:
Riders, Fonte Santa e MHM.

A não perder.

HOJE Eurovision em Castelo Branco

Auditório IPJ Castelo Branco às 21:45

ASTA – Associação de Teatro e Outras Artes
Tel.: 275 081 775 / Fax: 275 081 784
contacto@aasta.info / astateatro@gmail.com
www.aasta.info / www.astateatro.blogspot.com

 (foto: Ângelo Fernandes)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

HOJE: Eurovision em LEIRIA

XIV Acaso - Festival de Teatro
Teatro Miguel Franco 
10 de Novembro | 22h00
Informações / reservas
O Nariz - Telf.: 964 189 098 | E-mail: onariz_teatrodegrupo@sapo.pt
Organização: O Nariz - Teatro de Grupo | Apoio: Câmara Municipal de Leiria


domingo, 8 de novembro de 2009

Kalup Linzy, The Pursuit of Gay (Happyness)

In the streets of San Francisco

Sexta-feira em Berkeley

Comecei às seis da manhã (ainda estou em jet lag, só posso) a ler dois capítulos do Cormac McCarthy (Blood Meridian), tomei o pequeno-almoço com a net, voltei a um livro (Howard Hampton, Born in Flames – não vale a pena, desisti), fui até ao café com o computador e dediquei tempo ao primeiro acto da Hedda Gabler (estou a trabalhar sobre a traduçao), depois perdi quinze minutos a ver o Power Point da legendagem francesa do Padam Padam (voltou para trás, ainda não estava bem) e levantei-me, subi para cima da bicicleta com a energia da cafeína americana e desci até a uma loja de reparações de binas onde a depositei (a chinfrineira era grande e melhor afinar os travões…), segui a pé até à universidade para dar uma aula a alunos do departamento de português, chovia, cheguei molhado mas com vontade de falar e depois fui à biblioteca e encontrei um catálogo em formato de bolso de uma exposição Beuys/H.Müller/J.Meese a propósito de utopias e aproveitei para uma leitura breve de um livro da Judith Butler chamado Antigone's Claim por culpa do Vasco Araújo com quem tenho de escrever um texto e descobri na mesma estante o Handbook of Inaesthetics do Badiou onde estão as suas teorias do teatro (já publicadas neste blog) mas vai ter de ficar para outra altura porque não dava para check out e depois fui ao café ter com a Deolinda e a Orlanda (professoras do departamento) para tratarmos de burocracias e discutir como será a sessão final da minha presença aqui e fui à biblioteca do departamento de música check out o livro do Žižek e do Mladen Dolar sobre ópera (Opera's Second Death – fiquei a olhar para a partitura do Fairy Queen como boi para palácio) e então finalmente comi (algures entre isto fiz-me a uma banana e um iogurte) num restaurante tailandês onde queimei a boca e intestinos com um másculo picante que me deu energia para ir buscar a bicicleta devidamente oleada e com travões no sítio e pedalei até ao quarto onde fechei o dia comunicando com Lisboa e, já na cama, apreciei metade do Midsummer Night’s Dream do Max Reinhardt. Adormeci a ler o livro com que acordei e fechei o círculo para arredondar o dia.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

HAMLET SOU EU no TEMPO em Portimão

HAMLET SOU EU no TEMPO em Portimão
Dias 5, 6, 7 e 8 de Novembro

O ponto

Marty Robbins - Blue Spanish Eyes


Ontem fui à biblioteca da universidade e trouxe, só para experimentar:
Ibsen, Hedda Gabler
Avital Ronell, The ÜberReader
Howard Hampton, Born in Flames
J. Butler and G.C.Spivak, Who Sings the Nation-State
Allen S. Weiss, The Aesthetics of Excess
Só para experimentar.
Estou a terminar o último da lista. Um livro de 1989, professor nova-iorquino, pega no Surrealismo e Vanguardas americanas dos finais de 60, princípios de 80. Como eu é mais Dada e me apresento como Clássico Mentiroso (ou será Falso Vanguardista?) apreciei notar a família de pensamento a que tais tempos levam – Sade, Artaud, Bataille, Dali, Merleau-Ponty… – e satisfiz-me por ficar a saber que em 1771 o Abbé Dinouart publicou uma Arte de se calar (L’Art de se taire), retórica do silêncio que vem antes de muita coisa. Além disso, tomei nota de um pedaço da Segunda Meditação de Descartes, talvez porque como a minha cabeça anda, parece que tudo pode valer a pena.
Em inglês li, em inglês a reproduzo:
“If I chance to look out a window on to men passing in the street, I do not fail to say, on seeing them, that I see men, just as I say that I see the wax; and yet, what do I see from this window, other than hats and clothes, which can cover ghosts or dummies who move only by means of springs? But I judge them to be really men, and thus I understand, by the sole power of judgement which resides in my mind, what I believed I saw with my eyes.”

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Dia 10 de Novembro, 21h30, Leiria
Teatro Miguel Franco
Dia 12 de Novembro, 21h30, Castelo Branco
Auditório do IPJ
Dia 25 de Novembro, 21h30, Aveiro
Teatro Aveirense


Três semanas em Berkeley counting from now. Ainda em jet lag, são oito horas de diferença para Lisboa, saboreio o leito do French Hotel olhando para a mesa e duas cadeiras na varanda. Do outro lado da varanda um supermercado quase hipermercado com coisas boas e estranhas e altas na prateleira, produtos de qualidade, alguns exóticos, vários países representados e gastronomia variada.
Hoje um passeio até ao centro. Não muito extenso, limitado, mas ainda assim com livrarias de segunda mão em tamanho grande (a reciclagem é cultura local, bem como os produtos biológicos e ecológicos o que faz disto civilização – e o tamanho grande também faz parte, baldes de café, baldes de sumo, baldes), muitos restaurantes para experimentar, do tailandês ao cantonês, passando por indianos vários, italiano, diners e afins. Quando há sol, faz calor e pode-se estar de calção. Pela noite arrefece e tem de se estar de casaco. Vou ler um livro. Aqui lê-se. E cheira a café. Permanentemente.

domingo, 1 de novembro de 2009

sexta-feira, 30 de outubro de 2009


GRAF Ich gehe entgegen der Erdumdrehung. Je weiter ich vorankomme, desto mehr Minuten gewinne ich, aber durch reden verspäte ich mich. Ich will mehr. Mehr Geschichten. Zum Wohle des Fortschritts wird Max seinen Weg in Stille fortsetzen. Sich auf Hören und Sehen beschränken. Und aufs Riechen. Mmm. Das riecht gut, das Meer. Riecht nach Frühling.

(Tradução de Senia Hasivecevic de um pedaço de Paixão Segundo Max que escrevi para Schauspielhaus Wien. Estreia em 2010)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Oil ain't all, J.R.



DIAS 28, 29, E 30 DE OUTUBRO


HAMLET SOU EU no Teatro Viriato em Viseu

Dias 2 e 3 de Novembro 2ª e 3ª 10h30/15h00
no Tempo em Portimão
De 5 a 8 de Novembro 5ª e 6ª 9h30/14h00, sáb e dom. 16h00
no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães
De 3 a 5 de Dezembro 5ª e 6ª 10h00/15h00 e domingo às 16h00

quarta-feira, 28 de outubro de 2009


“In 1989 James Bond and with him every other spy lost their jobs. Without a cold war, with no Ivan and only one super power there was no need for a lonely man equipped with pre ipod-gadgets, beyond the law but in her majesties service and with license to kill, who with a swift DIY gesture could resolve global conflicts. Times had changed and the spy (…) had made himself useless.
With 1989 a strong political era came to a grand finale, but a new paradigm was already under cultivation and a new hero was needed: The Artist. Yes, the new James Bond was the artist, or rather the creative superhero always ready, packed with digital interfaces, perfecting the versatile performance of neo-liberal subjectivity sipping ice cold Chardonnay at a residency in Switzerland.
Indeed, there was no need for performances anymore. The artist’s life instead depended on the production of anecdotes and the ability to commute between research and residency projects. Thus the work needn’t be to any degree original but the individual’s uniqueness was refined in absurdum, who, in all modesty of course, emphasized that he or she was not at all an Artistah. And the word on everyone’s lips: collective. Collective, my ass!” ...
Mårten Spångberg

sábado, 24 de outubro de 2009


Não podemos deixar de agradecer o fantástico acolhimento do Goethe Institut de Berlim e mencionar a Astrid Grabow do Goethe Institut de Lisboa que nos aturou e esteve sempre connosco (óptima companhia!). E, last but not least, um especial agradecimento ao Dr. Joachim Bernauer que nos porporcionou esta oportunidade de cinco dias em Berlim.


Acrescento escrito já no aeroporto de Munique sobre o espectáculo da Ivana Müller. É um espectáculo de uma hora. O movimento dos seis ou sete em palco é o dos agradecimentos no final do espectáculo em slow motion. Estendido. E à medida que sorriem, aplaudem, saem e voltam a entrar, fazem a vénia, etc., dizem umas coisas, espécie de “pensamentos do actor no momento dos aplausos”. Entre eles está o Pedro Inês. E este acrescento é-lhe dedicado. Antes de mais por culpa do nome. Faz-me logo pensar no Belo Monstro de Picabia, resultado da omissão da copulativa na equação, ideia que aparece aliás escrita em Padam Padam. Pedro e Inês passa a Pedro Inês, neste caso não para explorar o paradoxo inconciliável, a impossibilidade possível (ou a possibilidade impossível) mas para unificar a tragédia e amor e género. Mas o Pedro Inês também teve o dom de, com a sua entrada em cena, nos fazer lembrar o nosso Pedro Pires produtor, dadas as semelhanças físicas, tantas que foi imediato o reconhecimento a quatro.


A prateleira do meu quarto e da Patrícia no Motel One continha uma caixa de Ibu-Ratiopharm, outra de Loperamid Sandoz, outra de Vomex A, outra ainda de Oralpädon, uma de Soledum, mais outra de Roxithromycin AL e lamelas de Dolo Dobendan. Sobrevivemos.

O encanto da despedida

Em breves e secas palavras, hoje tivemos sorte. É verdade que começámos cedo e que conhecemos os Monster Truck, um colectivo de gente que pareceu simpática mas que faz espectáculos com bexigas de porco e polvos, o que desde logo nos arrepiou a pele e pôs a olhar com ar desconfiado para as caras imberbes e bonacheironas dos seus elementos. Dali seguimos para a Schaubühne onde fomos cumprir calendário e sacar um dvd do Sonho de uma noite de verão do Ostermeier com a Constanza Macras, tirámos fotografias, fomos simpáticos e eles também, e voltámos a Kreuzberg para comer uma sopa Wan-Tan e comprar uns livritos. E finalmente, para o serão, dois espectáculos: Lutz Förster (ex-bailarino Pina Bausch) por Jerôme Bel e Ivana Müller (Playing ensemble again and again). No final da dupla sessão a Cláudia agarrou-se ao Lutz em descompensação, conhecemos o Pedro Inês que participa no espectáculo da Ivana e brindámos ao frio a despedida. Aconselhamos ambos os espectáculos, um por razão de afectos, outro pela esperteza e humor (já tinha visto um espectáculo da Ivana Müller – While we were holding it together – e a qualidade do primeiro vê-se confirmada no segundo).

Fechámos a mala. Com dificuldade. Muitas compras. Vários pares de sapatos. Livros, dvd’s e souvenirs. Amanhã partimos cedo. O Pedro vai para Bucareste. A Cláudia, o Zé e a Patrícia para Lisboa. No corpo, os pesados vírus e bactérias da cidade.
Levamo-vos a Praga.