quinta-feira, 17 de maio de 2007

Ensaios O Avarento - Hospital Miguel Bombarda

Dona Alzira - Minha filha, minha querida Marina, tens tanto ainda para aprender. A vida inda só vai no princípio. Confia na tua mãezinha. Gente como nós que nasceu com pouco não pode ficar de braços cruzados à espera da justiça. O velho Arpagão acha que temos umas terras. Impingi-lhe o boato e ele avançou com a proposta. Assinados os papéis e consumado o acto damos-lhe a verdade. Ele cai apopléctico e entra para as urgências. Seis meses de coma, se tanto, e depois o funeral. Mais meio ano de luto e és uma mulher livre.
Marina - E porque é que não casas tu com ele?
Dona Alzira - Porque ele a mim não me quer. Sabes como são os moribundos. Gostam da juventude.
Marina - Vendes este meu corpo puro.
Dona Alzira - Não sejas saloia. Santo Deus! Tanta ingenuidade dá-me cabo das mamas. Queres viver para sempre neste buraco escuro? Queres continuar a olhar para as montras sem uma moeda no bolso? Tu nem um cartão de crédito sabes o que é, filha! O mais que consegues é roubar notas do bolso dos outros, Isso não é futuro. Mais cedo ou mais tarde…

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Excerto do dia:
- Porque é que estás a ler?
- Porque é da minha personagem. Está na didascália.

domingo, 22 de abril de 2007

Ensaios O Avarento - Espaço do Tempo

Je vous parle d`un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l`humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C`est là qu`on s`est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue

La bohème, la bohème
Ça voulait dire : On est heureux
La bohème, la bohème
Nous ne mangions qu`un jour sur deux
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Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d`y croire
Et quand quelque bistro
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l`hiver

La bohème, la bohème
Ça voulait dire : Tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie
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Souvent il m`arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d`un sein
Du galbe d`une hanche
Et ce n`est qu`au matin
Qu`on s`asseyait enfin
Devant un café-crème
Épuisés mais ravis
Fallait-il que l`on s`aime
Et qu`on aime la vie

La bohème, la bohème
Ça voulait dire : On a vingt ans
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l`air du temps
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Quand au hasard des jours
Je m`en vais faire un tour
À mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d`un escalier
Je cherche l`atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans sonn ouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts

La bohème, la bohème
On était jeunes, on était fous
La bohème, la bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout

domingo, 15 de abril de 2007

Em Ensaios

O Avarento
de José Maria Vieira Mendes
a partir da obra homónima de Molière
Uma co-produção Teatro Praga / Teatro Nacional São João
com a colaboração de: Espaço do Tempo e Centro Cultural de Belém
Teatro Praga é financiado pelo Ministério da Cultura / Instituto das Artes

Estreia: Teatro Nacional São João, Porto (de 27 de Junho a 8 de Julho)
Temporada no Espaço do Tempo, Montemor-o-Novo: Residência - 16 de Abril a 5 de Maio / Espectáculos - 2 e 3 de Janeiro de 2008
Temporada no Centro Cultural de Belém, Lisboa: 11 a 19 de Janeiro 2008

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Kunst = Kapital (Joseph Beuys)

Texto: José Maria Vieira Mendes
Uma co-criação de: André e. Teodósio, Cláudia Jardim, José Maria Vieira Mendes, Marcello Urgeghe, Martim Pedroso, Paula Diogo, Patrícia da Silva, Pedro Penim, Rogério Nuno Costa e Romeu Runa.
Interpretação: Cláudia Jardim, Marcello Urgeghe, Martim Pedroso, Paula Diogo, Patrícia da Silva, Pedro Penim, Rogério Nuno Costa e Romeu Runa.
Iluminação: Daniel Worm d’Assumpção
Direcção de produção: Pedro Pires

domingo, 8 de abril de 2007

CONTINUA EM CENA

O Avarento de Molière
Exercício Final do Curso de Iniciação Teatral do CITAC

Dias: 9, 10 e 11 de Abril às 21:30
No Teatro Estúdio do CITAC, Associação Académica de Coimbra
Marcações: 967437098
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sexta-feira, 6 de abril de 2007

HOJE na Escola Superior de Teatro e Cinema

Imagens da apresentação final do workshop O Avarento com alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema.

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Apresentação do workshop da E.S.T.C dirigido por André Teodósio e Cláudia Jardim

Amanhã, dia 6 de Abril às 15 horas, E.S.T.C, sala 107

A partir d’O Avarento de Moliére.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Workshop E.S.T.C.

4ªsessão

Voltaram à Helena Rubinstein depois de estarem no alto da torre de marfim d’O Outro. Voltaram a ser só dois Ele e Ela.

Ele – Então pronto, começámos a gravar agora.

Ela – Mais uma vez voltamos à Lena Rubinstein…

Ele – Para mim ontem foi… Eu no fim já não estava a conseguir pensar.

Ela – Bem ontem foi muita duro eu também fiquei com os cornos em aguadilha…

Ele – Fiquei completamente estafado, estafado, estafado, estafado!

Ela – Tens de estar a dar resposta a cinco grupos diferentes, n’é?

Ele – Sim, sim, sim, andas a saltar, a saltar e depois… É um jogo altamente perverso que é…ahhhh…tu tentas dar-lhes a volta e eles tentam-te dar a volta.

Ela – Sim.

Ele – Então tu estás ali sempre… a tentar…ver quem é que dá a volta a quem…

Ela – Sim, sim a ver quem é que desiste primeiro.

Ele – Sempre.

Ela – Mas isso é bom sinal!

Ele – Sim, sim, sim, sem, sim é bom sinal. Mas eu também sinto que eles, se calhar, às vezes estão a crashar um bocado demais e… e… se calhar devíamos fazer outras coisas para… p’ra…p’ra descompenetrar, p’ra desc… para descomplexificar mais, nuns momentos, não sei às vezes parece que estão…entram em tilt rapidamente.

Ela – Pois , mas eu, eu acho que isso é pela falta de hábito neste tipo de exercício de pensamento… por que pá, é muita difícil, MESMO, é mesmo muito difícil… e… pá e os gajos… o que eu sinto é que como… como não têm esse calo ainda facilmente aquilo… Basta um dizer não e não sei o quê e aquilo tilta logo.

Ele – Pois.

Ela – (Risos) Gostei muito da Catarina e da Joana que ontem resolveram ir beber cervejas. (Risos)

Ele – Isso foi bom. Isso foi bom. Foi óptimo.

Ela – Aquilo não estava a ir para lado nenhum, elas estavam a tiltar completamente e foram arejar. Depois chegaram às 23 e 30 muito contentes, aquele género, já arejamos. (Risos) Já estamos capazes outra vez.

Ele – Eu gostei bastante do Tiago porque ele mudou radicalmente, propôs –se, ok, mesmo que não seja aquilo que ele queira fazer propôs-se fazer… a… a, a entrar no nosso jogo.

Ela – Sim, sim.

Ele – De alguma forma.

Ela – Também achei.

Ele – Já não estava a resistir, já estava a… a entrar no jogo.

Ela – Também achei que foi alto salto no grupo dele da Margarida do Nuno e da Carla…

Ele – Sim, sim, sim…

Ela …Que estavam altamente resistentes na, na, na….na sessão anterior de trabalho.

Ele – Sim, sim, sim.

Ela – Pá e parece-me que se os gajos apostarem, se fundamentarem bem o caminho que estavam a encontrar, pode ser muito interessante.

Ele – Depois eu vinha no comboio e vinha a falar com o Diniz e ele disse-me uma frase absolutamente maravilhosa que é…uma espécie de…ahhh….nuvem ….

Ela - Diz, desculpa?!

Ele – De nuvem.

Ela - Sim.

Ele – Que é quando tu olhas para um texto…ahhh….encarares um texto como um catálogo de emoções. Ele estava a dizer… É uma coisa muita gira tu veres… Essa coisa que ele estava a dizer, tu olhas para um texto e é um catálogo de emoções, olha agora aqui estou triste, vou fazer isto triste, ou não, isto é um texto de mau, assim uma espécie de catálogo… é uma ideia gira. E ele estava a dizer que era um problema que os actores tinham… que… que olhavam muitas vezes para os textos e encaram o texto como um catálogo de emoções em vez de outra coisa qualquer. Eu escrevi logo, copiei, claro!

Ela – Fizeste muito bem.

Ele – Vou já pôr no meu blog, quando tiver Internet.

(Risos Ele e Ela)

Ele – Se calhar não temos mesmo tempo, devíamos comer lá ao pé.

Ela – Não! Temos. Então já estamos quase ao pé do Babilónia

Ele – Acho que também nos devíamos dividir, às vezes…

Ela – P’ra, p’ra conseguirmos estar com mais pessoas?

Ele – Sim. E também para quem está a trabalhar cenas, eles têm tantas questões sobre o texto, como dizer o texto, pá quem está a trabalhar cenas começar logo a fazer exercícios: então diz-me lá como é que dirias esse texto, pronto, não é por aí ou é por aí.

Ela – sim mas eu acho que, se calhar, temos de passar a fazer isso para a semana, acho que é bom… essa ideia da coisa ser mais prática e de… por que acho que… aquela coisa de que falámos, se eles não arranjam um caminho certo muito facilmente vão encostar numa…

Ele – Não, não, não. Mas o que eu estou a dizer é, estão sentados e estão a trabalhar sobre uma cena, pronto, independenteme… não é, não vão fazer a cena, estão sentados e estão sempre com aquelas questões: ai e o texto, como é que se diz o texto e não sei quê. Fazer logo umas pequenas experiências.

Ela – Ok.

Ele – Sem cena, sentados, a dizer o texto. Como é que se diz o texto? É mais isso não é nada fazer só para ficarem divertidos a fazer, de todo… de todo. Mas para mim ontem foi completamente…

Ela – Eu saí de lá arrasada

Ele – Eu também.

Ela – Arrasada.

Ele – Eles estavam cheios de energia e eu estava morto.

Ela – Pá, porque quer tu queiras, quer não, estás ali a especular sobre ideias de cinco grupo e…e estás completamente a meter-te naquilo.

Ele – Pois, pois.

Ela – É impossível estares a trabalhar ideias e cenas e coisas assim se não te implicares verdadeiramente e isso é muita esgotante.

Ele – Pois, pois. Mas foi o contrário, exactamente o contrário dos dias anteriores em que nós estávamos cheios de energia e eles cansados a consumir a consumir e agora estavam eles cheio de energia a produzir…

Ela – E nós, tipo, AHHHHHHHHH PÁREM!!!!!!!!!!!

Ele – A ficar mortos (Risos)

Ela – Eu no fim quando estava a falar com o grupo do Nuno, do Tiago, Da Carla e da Margarida, já estava enlouquecida. Eles começaram a falar e só me diziam: o riso, o riso eu, eu a crashar...

Ele – E eu, fiz um ponto… no final queria fazer um ponto de ordem…

(Risos Ele e Ela)

Ela - Não foste capaz (Risos)

Ele – (Risos) Não fui capaz de fazer nada, caralho. Disse: pronto, então é assim controlem-se uns aos outros…

(Muitos risos Ele e Ela)

Ela – Foi tão bom! Foi muito bom!

Ele – Foi a única coisa que eu consegui dizer. (Risos) Não consegui fazer ponto de ordem nenhum!

Ela – Aquele género, ponto de ordem não há!

(Risos cada vez mais largados Ele e Ela)

Ele – NÃO HÁ!!!!!!!! É muito triste.

Ela – Eu acho que para a semana isto vai ser fodido é para nós porque os gajos vão estar de férias, nós vamos estar com ensaios à tarde…

(Risos já a tocar na demência Ele e Ela)

Ela – Ou seja, vamos queimar os cornos a tarde toda , depois chegas aqui e tens de queimas os cornos mais uma vez.

( Conversa cortada pelo lápis azul da censura)

Ele – Pronto, é isto. Não se passa mais nada no reino da Germânia. Já não tenho mais nada a acrescentar.

(Pausa)

Ele – Como tentar respeitar o texto, ou servir o texto numa bandeja, sem qualquer tipo juízo moral sobre ele?

Ela - Isso eu acho que está a ser difícil.

Workshop E.S.T.C.

3ª sessão

Ele, Ela e o Outro no 10º andar. Local: Varanda da casa do Outro.


O outro – Depois de André finalmente ter posto isto a funcionar.

Ela – Primeiro eu tenho uma questão. Como é que ele se vai chamar? É Ele, Ela e…

Ele – O Outro. Zé tu és O outro.

Ela – Gosto muito O outro!

Ele – Bom , ontem dividimos os grupos. Lemos as cenas do Zé.

Ela – Sim. Também lemos as entrevistas do Lars von Trier e da Marina Abramovic e depois dividimos os grupos. Temos neste momento quantos grupos? E pronto a coisa começou a andar. (Risos) O trabalho duro azeda.

Ele – Diz lá tu Zé, daquilo que tu viste…

O outro – Eh pá, eu cheguei lá, eles leram um bocadinho das cenas, foi muito giro ouvir as cenas em estreia absoluta e… e… e falámos um bocadinho sobre o que era a minha adaptação, não foi? Eles fizeram umas perguntas sobre isso.

Ela – Sim que era umas coisas em que eles andavam a empreender desde o início.

Ele – Mas mesmo assim não houve tantas perguntas como…

Ela – Sim porque eles estavam com vergonha. Não viste um que tratava o Zé por você.

Ele – Não!

Ela – “… O seu texto..”

O Outro – Era… pois, nem percebi.

Ela – Eu pensei: olha que bonito chama-se a isto respeitar o autor. É verdadeiramente respeitar o autor. (Risos) Achei que eles ficaram um bocado envergonhados. Mas depois tu andaste lá por uns grupos. Eles chamaram-te.

O Outro – Sim. E reparei que havia muita gente… (surgem vizinhos na varanda ao lado) ‘Pera aí que eu tenho de ir falar com os meus vizinhos.

Ele – Vamos fazer uma pausa.

(Pausa para manter boas relações com a vizinhança)

Ele – Ok. Dizíamos…

O Outro – Desculpem lá.

Ela – É verdade que eles não fizeram muitas perguntas ao Zé mas depois eu estava a dizer que ele andou lá nos grupos.

O Outro – O que é que eu andei a fazer lá pelos grupos? Percebi algumas coisas, percebi por exemplo que conhecem pouco… alguns não conheciam o original do Moliére. Depois também percebi que já não me lembrava do original. Já não me lembrava mesmo nada. Quem era o pai quem era o filho, os nomes…

Ela – Eu, aconteceu-me que eu...

Ele – É fácil pensa no filme do Louis de Funès.

O Outro – O problema são os nomes das personagens. Como eu troquei os nomes às personagens o Anselmo já não é o Anselmo, o Valério ou o Varela não é o Valério, percebes? Aquilo já está tudo trocado na minha cabeça.

Ele – Pois, também na minha está, por isso é que eu vou sempre ao filme.

O Outro - O problema são os nomes!

Ela – Eu… eu não tinha lido o… o Moliére antes de ler o teu. Li o Moliére depois de ler o teu. E foi muita giro, porque de repente, de repente coisas que não eram muito claras… Por que é que tu optavas por determinadas soluções, quando li o Moliére clarificaram-se essas opções. Estás sempre a fazer o ponto e isso foi muita giro. Mas sim, é verdade há uns que não leram o… O Avarento.

O Outro – Ou não tinham ainda tido tempo para ler ou…

Ela – Ou não acabaram ou ba ba ba ba ba ba ba ba ba.

Ele – Ainda assim em relação aos materiais, para além do texto…

O Outro – Olha o que eu achei engraçado, eu que vim de fora, foi ver a malta ali durante uma hora, ali a ler coisas, não é? E pensei, estes gajos vão-se chatear aqui e… vão começar a… parecia que havia um ou outro que estava, o que é normal, a resistir um bocadinho, mas… mas, por exemplo a da Marina Abramovic, aquilo correu bem, porque a entrevista começa a ser divertida e tem, quer dizer, consegue ter assim um lado mais… eles iam-se divertindo ao mesmo tempo. Mas eu pensei que era muita coisa. Uma hora e tal só a ler, deitados no chão a ler, não é? E em inglês, ainda por cima. E depois fiquei espantado quando eles vão, começam a trabalhar e voltam para apresentar coisas, de repente: olha afinal… ahhhh…serviu para alguma coisa. Parece que estimulou qualquer coisa porque eles foram muito rápidos a aparecer com ideias.

Ela – Sim.

Ele – Sim, sim, sim.

Ela – Isso é verdade.

O Outro – Vocês devem ter-lhes dado uma ensaboadela…

Ela – Os dois primeiros dias foram um bocadinho dementes. Nós estávamos sempre a tentar controlarmo-nos um ao outro. O André dizia… acho que foi no primeiro dia de conversa que disse exactamente isto : nós já trabalhamos juntos há muito tempo, há materiais que já nos são muito familiares e já estamos muito codificados na maneira como falamos. Se um dispara e o outro dispara a seguir é demente…

O Outro – Pois é.

Ela – Temos de estar sempre a travar. Tanto que eu achei que no segundo dia quando lemos a entrevista dos “Mil Planaltos” do Deleuze que o Tomé… não aguentou, agarrou nas coisinhas dele e foi-se embora e eu pensei: não volta, pronto acabou-se. Mas voltou, é resistente.

Ele – Sim, porque os materiais não têm necessariamente a ver… outra vez e voltando à questão da Catarina, ela perguntava se os materiais eram sempre os mesmos independentemente dos textos. De alguma forma sim… porque… porque…ahhhh… porque aquilo não tem a ver com Moliére, mas sim com um entendimento do espaço criativo comtemporâneo, que eles ainda não têm... ahhhh… tem a ver com o nosso… com… com… não é só com a nossa ideia… com a nossa ideia de… de… de…

O Outro – De teatro

Ele – De teatro. Tem a ver com a Marina Abramovic, tem a ver com o Lars vom Trier, tens uma performer e tens um cineasta e tem a ver com um filosofo mas que também trabalha com um psicólogo ou psiquiatra… ahhh… portanto, tem a ver um bocado com o espírito do tempo, muito mais do que com Moliére… coisas que, por exemplo, “Os mil planaltos” são muito importantes… ele diz que tu não te podes esquecer de quem tu és e de quando tu vives. Tu vives interdisciplinarmente hoje em dia, portanto não podes negar.

O Outro – O que eu acho diferente entre os textos que vocês estão a dar e … e a questão que ela (a Catarina) colocou e, por exemplo, aquela reacção daquele rapaz o Tiago, no final, que diz que quer aplicar o Artaud ao Moliére mas também podia aplicar a outro qualquer, não me interessa. É perceber que há uma diferença entre vamos ler o Deleuze e agora vamos ler o Molière. O que é que isto significa. Não é aplicar o Deleuze ao Moliére…

Ele – De todo.

O Outro – Ou aplicar o Artaud ao Molière ou… É isto abre-nos uma série de ideias sobre…

Ela – Mas esse é o equivoco que eu acho que ainda há.

O Outro – E a pergunta dela eu acho que é preciso esclarecer, é preciso responder bem a essa pergunta, porque é uma boa pergunta. Eu achei logo que ela estava a tocar no nervo, porque isto pode criar um desentendimento. Pode-se facilmente cair no erro que o Tiago estava a cair.

Ele – Sim, sim, sim, sim. Sim porque não tem a ver com uma forma de concretização, não é, de todo, uma forma. É só uma tentativa de… por exemplo, uma coisa que nós falamos sempre que é…ahhh…a questão de ler um autor, se estamos a respeitar o autor ou não… E está lá na entrevista do Deleuze. Quer seja uma leitura antropológica, quer seja uma leitura altamente formal ou experimental, whatever that is, estás sempre a ler através da tua forma, nunca estás a ler sem seres tu. Por mais que tu aches que estás a respeitar o autor…

Ela – É o que TU achas que é respeitar o autor, por isso não há fuga possível.

Ele – E não tem a ver com uma forma de… de fazer o espectáculo, não é, de todo, tem a ver com uma consciência tua como artista no tempo onde tu vives. É muito mais isso.

O Outro – É mais abrangente.

Ele – Muito mais… e abre muito mais portas, apesar de parecer que te canaliza muito mais, abre muito mais portas.

Ela – E por isso é que também percebes a dificuldade que alguns têm em tomar decisões muito concretas quando se passa para a prática, apesar de eles virem carregados de ideias… o primeiro grupo do Diniz, da Yolanda e do Fábio, nisso foi muito feliz que acertaram lá numa zona fisgada e parece-me que são os que estão mais encaminhados, mas os outros o que tu sentes é que aquilo abre-lhes tantas possibilidades que eles não são capazes de escolher. Ainda. Ficam baralhados com tanta hipótese Ficam à toa quando têm de optar. Também a coisa de ninguém lhes dizer: agora fazes assim…

O Outro – Mas olha que eu nem em todos senti que havia uma apropriação dalguma coisa. Se calhar houve um ou outro grupo, não te sei dizer qual que senti que não aproveitaram nada, pelo menos por enquanto.

Ela – Ou que ainda não estão a conseguir articular bem os materiais todos que foram lançados para a mesa e que aquilo ainda está uma pápa.

O Outro – Mas também é absolutamente legitimo que eles cheguem à conclusão de que nada daquilo lhes interessa…

Ele – Obviamente.

Ela - Com certeza. Mas também essa foi uma conversa que tivemos com eles desde o início. Se eles decidirem que querem fazer uma apresentação absolutamente formal o nosso trabalho ali é dar-lhes os materiais para que isso seja possível de… de não ser uma coisa só porque sim. O gesto criativo não compreende uma ingenuidade..

Ele – A questão é que hoje em dia é impossível apresentares qualquer coisa sem a justificares, mesmo que a justificação seja, nós falamos sempre no caso de Jeff Wall, mesmo que a justificação seja não há justificação, cada um pode interpretar isto à sua maneira. Mas isso já é uma justificação em si… e também isso tem de ser aprofundado. Por que é que cada um pode ler à sua maneira? Não é só, ah cada um pode ler a sua maneira, tens de justificar porquê. Mesmo que não justifiques o trabalho. Como faz o Romeo Castellucci, de alguma forma. (Há um telefone que toca) Queres atender o telefone?

(Pausa para O Outro ir atender o telefone)

Ela - Mas eu também acho que não é fácil, chegas lá dão-te uma porrada de textos…

O Outro – Não é nada fácil. Mas deixa-me só pegar naquilo que vocês estavam a dizer… eu estava-me a lembrar de uma coisa que é, também não nos podemos esquecer que o workshop é dado pelos Praga e há uma linha, naturalmente… ou não? Vocês dizem. Ah eles podem pegar no Molière e fazer o que quiserem….

Ele – A única linha que tu tens, e podes dizer que é a linha da Praga é TENS DE JUSTIFICAR CADA COISA QUE FAZES… mesmo que seja uma ausência de justificação.

O Outro – Sim mas um Workshop dado pelos Praga ou um Workshop dado por, sei lá pelos Artistas Unidos ou por… pela Cornucópia é diferente, ou não é?

Ele – Não sei o que é porque nunca fiz nenhum com os outros.

O Outro – Eu também não sei porque nunca vi workshops. É uma questão que vos faço não sei se…

Ela – Sim mas eu acho que isso é uma falsa questão…

O Outro – Vocês dizem: ah eles fazem o que quiserem, eles fazem o que quiserem mas não é bem assim. Vocês não são inocentes!

Ele – Eles fazem o que quiserem mediante uma plataforma de entendimento.

O Outro – Vocês são, no fundo, orientadores do Workshop e vocês não são… não é que não tenham identidade, vocês têm uma identidade.

Ele – Mas só passa por isso, eu estou-me a cagar se tu fazes aquilo com uns figurinos de época, tem é de me ser justificado. Não pode ser só porque o Piccolo Teatro di Milano faz… não pode ser isso, não é suficiente…

Ela – E nesse sentido quando entregamos aqueles textos estamos a salvaguardar o espaço da nossa identidade. São textos que circulam entre nós, aos quais nós recorremos…

O Outro – Mas se têm um discurso de: não, nós só estamos aqui para fazer perguntas, eu acho que não é assim tão inocente.

Ele – Claro que não é inocente!

Ela – Não é inocente de todo!

O Outro – Vocês não são assim tão inocentes. Vocês estão a apresentar uma série de textos…

Ele – Os textos também não são inocentes.

O Outro - Estão a apresentar-se como Praga, mostraram os vossos espectáculos e não sei quê… Está-se a criar uma linha… está-se a mostrar qualquer coisa, os vídeos que vão mostrar não são do espectáculo do Strehler. Isso não é nada inocente:

Ele – Sim, mas podiam ser vídeos de outras companhias. Se eu tivesse acesso a vídeos que eu achasse interessantes.

O Outro – Interessantes para ti?

Ele – Claro. Para mim e para a Cláudia neste caso. A Praga não tem um desejo único tem 10 mil desejos diferentes.

O Outro – Mas isso também é uma ideia. Isso também é uma identidade.

Ele – Obviamente!

Ela – Pois é!

Ele – Mas uma identidade absolutamente aberta.

O Outro – Mas quando vocês decidem: agora divido-os em grupos e não dirijo aqui ninguém, só faço perguntas. É completamente diferente de um workshop onde há um encenador que diz: tu vais fazer assim, tu assim…

Ele – Há uma linha sim, mas é uma linha muito mais aberta. Não é uma linha fechada. É uma linha aberta onde cada um pode fazer aquilo que quiser. Obviamente mediante, também, as nossas questões e o que nós achamos que é fundamental para eles como futuros agentes criadores…ahhhhh… ahhhhh… não basta fazer, não basta fazer, vão ser aniquilados logo à partida… porque se não tens um discurso…

O Outro – Pois, pois, pois… Eu acho que uma das mais valias que vocês podem ter, no trabalho com eles, é precisamente, a ideia de, vocês são um grupo de quatro pessoas ou três ou o que for e vão ter de trabalhar juntos e não há aqui ninguém que seja mais forte…

Ele - Exactamente.

O Outro – Porque naquele grupo, por exemplo dos quatro sentia-se que havia um que estava a puxar mais p’ra ele…

Ele – Pois, pois.

Ela – Mas por isso é que nós dizíamos: tu se tens uma ideia tão concreta, sabes tão bem o que queres, se calhar mais vale fazeres sozinho…

Ele – Mas nesse sentido sim, não é , de todo, a nossa linha porque nós somos absolutamente comunitários. Não há ninguém que mande os outros fazer. Isso não existe.

O Outro – Sim, mas não passa pela tua cabeça fazer um espectáculo… fazeres o TEU espectáculo?

Ele – Mas eu faço! Ela faz! Fazemos, quando queremos fazemos. Eu vou encenar uma ópera sozinho. Eu já fiz monólogos sozinho, não pus ninguém lá em co-criação.

O Outro – Por isso é que se o outro rapaz disser: eu quero fazer sozinho, também é válido.

Ele – Mas então, se calhar, está no sitio errado porque o nosso propósito ali é trabalhar sobre o Molière e trabalhar em conjunto sobre o Molière.

O Outro – Ah, pronto:

Ele – Não é… não é ensinar a ser encenador, isso é o que a escola deve fazer, mostrar-te várias linhas de trabalho e ensinar-te a ser encenador. O que nós estamos ali a fazer é um trabalho anterior a isso, que é, ok, queremos lutar, de alguma forma contra essa figura tutelar, embora individualmente cada um o saiba fazer, mas… mas queremos fazer um trabalho em conjunto com pessoas.

Ela – Por isso é que eu acho que, agora, a coisa vai ficar cada vez mais dura. À medida que as ideias vão avançando e que eles vão ficando, cada um deles, mais seguros e afirmativos no que querem, o nível de negociação com os outros e até connosco vais ser mais duro, mais difícil. Mas essa dificuldade faz parte exactamente deste processo, também aprenderes a fazer cedências quando estás com um grupo … e os outros, também a ceder e arranjar ali uma plataforma que seja comum.

Ele – Ou então o contrário, teimar, teimar, teimar até os outros se sentirem apaixonados pela tua ideia.

Ela – Seja por exaustão, seja por desistência do outro é defenderes a tua ideia... nós costumamos dizer, um bocadinho na brincadeira um bocadinho a sério, que vamos para a guerra. Ou seja tens ali o teu material e agora vais partir a cabeça a toda a gente para que o teu material seja aceite, ou então vais perceber: olha afinal há uma ideia mais interessante que a minha. Também é importante não haver pudores em desistir de uma ideia, não ficar a teimar só porque a ideia é tua… se alguém chega com uma ideia mais interessante que a tua é importante saberes desistir da tua em prol da outra…

Ele – Isto também serve para nós, não é um workshop só para eles. Serve para aprendermos, revermos coisas, reformularmo-nos, termos novas informações. É como o Pacheco Pereira, sair da esquerda e ir para a direita. Fazer de espião.

O Outro – Foi uma das razões por que eu quis lá ir… para me obrigar a falar um bocadinho sobre… para começar a entrar outra vez, estou há um tempo distanciado do texto. Agora vamos começar a entrar nisto… começar a articular coisas e a explicar olha eu fiz isto por isto…

Ela – Sim. Depois coisas que nós internamente já… já tomamos como garantidas, já nem sequer justificamos isso, internamente, uns com os outros. E nem pensamos muito sobre a coisa, de repente ali, és confrontado com a pergunta: desculpa eu não estou a perceber, mas isso porquê? e obriga-te e esse exercício de revisão da matéria dada.

O Outro – Bem, mudamos de tema? Há mais temas?

Ela – Eu fiquei preocupada com o Tiago ontem… porque… não sei, acho que devíamos falar com ele… pá porque, não sei … para esclarecermos que ninguém está contra ninguém. É só trabalho. Isso também é uma coisa que é difícil de compreender, porque às vezes as discussões ficam muito acesas…

O Outro – Mas é preciso questionar, é preciso…

Ela – Claro que é!!!! Mas também é preciso esclarecer muito bem que a coisa não é pessoal, é discussão de ideias de trabalho.

Ele – E quando te propões estar ali, propões-te a isso.

Ela – Era como dizias no outro dia: uma coisa é saber que se conversa muito, outra coisa é sofrer a conversa. Conversar muito implica também entrar em desacordo profundo e em choque profundo.

Ele – Ficamos por aqui hoje. 3, 2, 1. Varanda de Benfica à vista o British Hospital, o BPI , a Galp e a 2ª Circular……………………………


Workshop E.S.T.C.

2ªsessão

Mais uma vez Ele e Ela na Helena Rubenstein

Lado A


A Canção de Lisboa
De Filipe la Féria


Ele – Ok começa o dia dois…

Ela – Ponto alto, ponto altíssimo do dia de ontem: La Féria é Arte ou não?

Ele – Sim esse é um ponto muito alto.

Ela – Muito alto, muito alto. E não se perceber por que é que não é.

Ele – Por que é que não é e é entretenimento e por que é que o entretenimento há-de ser visto como melhor do que a arte e não simplesmente como uma coisa diferente.

Ela – mas isso por acaso bateu-me imenso… Mesmo… E comecei a ficar irritada com aquilo , houve uma altura que eu já só berrava. Só dizia: oh pá por favorrrrr… por que acho que há muitos equívocos também, na cabeça deles, ainda… no sentido em que…Não são equívocos estruturais - que também há acho eu – mas equívocos no sentido de não saberem muito bem o que querem, como querem, para quê querem. Se calhar faz parte não é?

Ele – Sim mas acho que já… Acho que ontem foi muito mais elucidativa a conversa. Muito activa .

Ela – Sim, porque as pessoas também se implicaram mais já estava tudo mais à vontade e já toda a gente… E houve mesmo ali momentos em que a coisa ferveu!

Ele - Não percebi se houve desistências ou não.

Ela – Não! Eu, parece-me que o Tomé desistiu

Ele – Pois também acho que sim. Desistiu.

Ela – A meio do dia de ontem… mas as outras pessoas que faltaram um deles foi aquele tipo, não me lembro do nome dele, da Madeira .

Ele – Ah sim, sim.

Ela – Ele tinha-nos avisado que não ía…

Ele – Pois, pois, pois.

Ela – E as outras duas mandaram … a outra é a Yolanda, mandou um recado pelas outras meninas a dizer que não podia ir mas que hoje ia…

Ele – Bom… Uma coisa também é importante… Perceber que não podemos montar o Moliére, o texto todo do Moliére, mas sim trabalhar com aquelas cenas. Isso leva para um caminho completamente diferente, uma coisa é montares o texto todo…

Ela – Claro.

Ele - …Outra coisa é teres aquelas cenas que.. à partida tens de que montar as cenas com uma outra lógica. Não podes montar..

Ela – Com certeza.

Ele – Isso também foi importante.

Ela - Pois e também gostei de chegarmos aí… não ser uma coisa que tivéssemos os dois decidido à priori… Sabes? Que fosse uma coisa que fosse descoberta ali que saltasse das conversas que estávamos a ter… isso também gostei muito…ahhhhhh… mais coisas que eu gostei muito do dia de ontem…a voz de pessoas que não tinham aberto a boca no dia anterior ouvir-se…

Ele – Sim.

Ela – Com questões e interessados … Foi bom…Pronto há sempre uns que são mais efusivos… equívocos de que tudo é válido também alguns a saltar..

Ele – A Arte Metafísica!

(Risos Ela)

Ele – A questão da forma, outra vez
.
Ela – Sim, outra vez, outra vez…

Ele – Do Belo, no fundo é o Belo. Fazer porque é Belo.

Ela – Mas sabes que eu nem…eu acho que nem é porque é Belo… e também fiquei contente e acho que é importante ter-lhes dito que eu não quero que eles façam nada à la Teatro Praga.

Ele – Whatever that means!

Ela – Sim, whatever that means, ou… Mas percebes o que eu estou a dizer?

Ele – Sim, sim, sim, sim

Ela – No sentido que.. que não quero nada que me convençam com ideias… Que eles pensem para mim. Quero que eles pensem para eles. Porque acho, sinto, intuo que há ali possibilidades de isso acontecer. Umas pessoas fazerem o que acham… o que acham que nós esperamos que eles façam.

Ele – Mas o que é estranho é que por exemplo…ahhhhh…ahhhh…coisas fragmentárias e objectos do quotidiano etc.deixam de ter umaaaaa… deixam de ter uma lógica conceptual e passam a ser… coisas puramente formais.

Ela – Sim.

Ele – Mas isso é um bocado estranho. Como é que tu deixas de pensar sobre essas coisas? Como é que… Como é que elas passam a ser, pronto, são um efeito. Não há um… não há um pensamento.

Ela – Pois, não sei muito bem. Quando fizemos a pausa para ir fumar lá fora a Margarida estava-me a perguntar: então quando vocês dizem que não marcam as coisas, ela tinha ido ver o Quarteto, o Quarteto tinha uma ordem muito definida…

Ele – Se calhar podemos por dentro do parque não se paga.

Ela – Para quê?

Ele – Não sei qual é a saída em que ele vai sair.

Ela – Mas ele há-de dizer alguma coisa… Ahhh… Ela estava-me a dizer: Por exemplo vocês faziam a dobragem quando era a dobra… naquela zona de texto, porque aquela zona de texto é que batia nas bocas. Mas isso não tem a ver com marcação de cena tem a ver com mecanismos que tu recorres para o espectáculo.

(conversa cortada pelo Lápis Azul da censura)

Ele – Eu acho que ainda há um preconceito em relação à arte e à intelectualidade e ao não abranger muita gente… Não… Não …É um bocado estranho Esses ideais do produto cultural como…como…como…

Ela – Um produto massificado

Ele – Sim um produto massificado.

Ela – Ou melhor um produto para massas.

Ele – Sim para massas. Pode ser. Mas pode também não ser.

Ela – pode ser mas não tem de ser. Ou seja, tu não tens de produzir com esse sentido, não deves estar a criar a pensar que… sim mas isso vem de uma lógica completamente nhec… que é a lógica que te é imposta. Tens de ter não sei quantos espectadores, tens de fazer não sei quantos espectáculos por ano… (toca o telemóvel dele) olha será o Zé.

(Pausa para o Zé entar em cena)

Ele – Voltámos!

Ela – Mas tem a ver com uma lógica que te impõem… que de repente… era aquilo que dizia a Joana que é : o La Féria tem as costas quentes porque tem não sei quantos espectadores. Oh pá bestial que ele tenha não sei quantos espectadores. E é bom que venda e ainda bem que vende mas tu não podes nem queres entrar nesse campionato.

Ele – Pois claro.

Ela – Não podes é exigir que se compita com isso.

Ele – Pois, não podes, não podes.

(Zé finalmente entra em cena)

(Conversa cortada pelo lápis azul da censura)

Ela – E continuas a achar que vão desistir muitos?

Ele – Não sei, não sei.

Ela – Eu agora já acho que vão desistir menos… eles ontem estavam todos… todos entusiasmados, e isso é bom! Tem o seu valor… Mais coisas importantes… gosto muito da confusão que lhes faz o que é que o Zé fez com o texto do Moliére… gosto imenso… eles sempre a perguntarem: Ele rescreveu como e porquê?

Ele - Sim isso é fora.

Ela – O Zé hoje vai ser absolutamente bombardeado. Aquele género então e não sei o quê? E mais não sei o quê?

Ele – Não o que me faz mais aflição é que parece que… é sempre a lógica … agora já não usam a palavra desconstrução mas há sempre uma lógica de que estás ali para fazeres o que quiseres com um texto… para desconstruires um texto.

Ela – Pois há, pois há… mas era nesse sentido que eu te dizia…

Ele – Isso é absolutamente fora porque… parece que às vezes não entra… tu estás sempre a ler o texto à tua maneira mesmo que a lê-lo supostamente de acordo com as intenções do autor… estás sempre a lê-lo à tua maneira…

Ela – Sim!

Ele - … E qual é a diferença entre tu fazeres uma coisa ou fazeres outra é sempre à tua maneira!

Ela – Claro! Mas isso tem a ver com a recepção que eles… recepção absolutamente formal quase estética…

Ele – Mas isso é bom!

Ela – Que eles fazem do… os que conhecem o nosso trabalho, que fazem dos trabalhos n’é porque quando… quand…

Ele – Não, mas pode ser. Isso pode ser. Eu acho que tu podes ter uma… podes ter uma, ummm, ummm, podes observar um espectáculo de diversas formas, quer seja formal, quer seja simbólico, ouuuu… ouuuu altamente hipertextual etc.

Ela – Com certeza que podes.

Ele – Agora tu como criador tens de ter muito cuidado. Podes optar por fazer formalmente um trabalho…

Ela – mas isso é a velha questão que lhes estamos sempre a dizer. Se quiseres fazer a reconstrução histórica, faz…

Ele – Mas tens de justificar.

Ela – Mas explica-me porquê…

Ele – Pois, pois, pois, pois.

Ela – Explica-me muito bem por que é que a queres fazer.

Ele – Pois, já não basta… Se calhar, na verdade, será muito mais interessante fazeres uma reconstituição histórica… hoje em dia. Não sei, eu vejo-os a falar sobre… ahhhh, os objectos quotidianos e, e as tais lojas do chineses etc. e aquilo já está tão garantido, já não tem questionamento nenhum…

Ela – Pois.

Ele – Se calhar mais vale fazer o trabalho inverso, que é monta-lo de uma forma absolutamente antropológica e justifica-la ao máximo.

Ela – Sim, sim…

Ele – Isso será provavelmente muito mais… ahhhh interessante dialéticamente do que… um simulacro constante de trabalhos anteriores ou da Pina Bausch etc…. também há um certo misticismo, se calhar, à volta das coisas….

Ela – Eu depois também gosto de sentir que há… há uns quantos em ebulição e que estão fodidos por não ter tempo para…p’ra ir à procura de coisas… isso também foi muito lindo ontem… A Ana é que me dizia: Eu agora pá vou para casa cheia de coisas na cabeça e não consigo dormir, ao mesmo tempo também não posso ir fazer nada porque amnhã tenho de estar aqui na escola às 9 da manhã… Não dá, não dá! – dizia-me ela. (passamos de carro pela avó dela) AHHHHHHH ! A minha avó!

Ele - Oh! A avó Mila!

Ela – Que querida!

Ele – Coisa mais querida do mundo.

(divagação gastronómica sobre o cozido à portuguesa da avó Mila)

Ele – Bom na verdade foi tanta coisa ontem.

Ela – Foi muita coisa, foi. Mas foi assim muita coisa…

Ele – Mas foi activo, foi activo…

Ela – Foi super activo.

Ele – Isso é muita bom!

Ela – Eu estava com imenso medo porque como começamos com a…a…

Ele – Eu julguei…

Ela - … Com a entrevista do…

Ele – Eu julguei que metade das pessoas não aparecesse.

Ela – Pois isso eu também achei. E depois achei que metade das pessoas ia-se suicidar depois da entrevista sobre os “Mil Planaltos”. Pensei, pronto, agora é que isto vai rebentar… os que cá estão vão aproveitar a pausa para cigarro para agarrarem nas coisinhas e irem à vida deles. Mas não… não! Gosto muito da atitude não percebi falem um bocadinho sobre.

Ele – Pois, pois, pois…

Ela – Acho boa onda. E foi de facto super activo, mas foi activo em catadupa n’é? E nem sei como é que os saltos se deram! Sei que houve um bloco que começou no Deleuze e acabou no La Féria.

Ele – Mas, se calhar, devíamos hoje fazer um exercício que era: pensar porquê fazer Moliére à la Moliére. Como é que tu podes justificar fazer Moliére a lá Moliére, ou não fazer o Moliére…ahhhhhhh . com estás coisas garantidas da comtemporâneidade, mas nós também não estamos a fazer o texto, a verdade é essa, é impossível!

Ela – Sim e não podemos ter essa ilusão de que estamos a fazer Moliére. De facto não estamos. Estás a usar Três cenas para cruzar com outros materiais

Ele – Tens razão, tens razão.

Ela – E no caso de pegarmos também nas cenas do Zé e de cruzarmos com as cenas do Zé com as cenas do próprio do Moliére…

Ele – Também gostei muito quando eles nos perguntaram o que é que nós gostávamos na actividade teatral portuguesa.

(Risos)

( conversa cortada pelo lápis azul da censura)

Lado B
Ou o que é feito de ti Ruth?

Ele – Dizia a Cláudia que quando entrou depois da pausa para cigarros o Tiago falava sobre a Ruth Rita…

Ela – queria fazer um espectáculo sobre o que é que tinha acontecido à Ruth Rita, quem era a pessoa do Macaco Adriano, por que é que as pessoas nos anos 90 vestiam calças aos quadrados e ainda quem é que subia o pau de sebo no Big Show Sic.

Ele – Não pode! Eu disse que se isso fosse de uma modo puramente formal e intuitivo não pode sem justificar essas decisões.

Ela – Eu disse que se assim fosse que não ia ver os espectáculo porque queria continuar a gostar dele…

Ele – Mas até ia ver!

Ela – Vais ver?!?!?

Ele – Vou, gosto da Ruth Rita e quero saber quem é o Macaco Adriano.

Ela – Eu queria imenso é que ele me convidasse para ser a Ruth Rita do espectáculo dele.

Ele – Mas ele quer a Ruth Rita verdadeira!

Ela – Mas isso já é domínio das Artes Plásticas!

Ele – É verdade, é verdade!
(Risos)

Ele – Tens mais alguma coisa a acrescentar?

Ela – Não.

quinta-feira, 29 de março de 2007

ESTREIA HOJE

O Avarento de Molière
Exercício Final do Curso de Iniciação Teatral do CITAC

Dias: 29 e 30 de Março / 2, 3, 4, 5, 10 e 11 de Abril às 21:30
No Teatro Estúdio do CITAC, Associação Académica de Coimbra
Marcações: 967437098

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White & Black Blues

Se algum jornalista cultural me viesse fazer aquela pergunta medíocre, “Que sentido faz fazer O Avarento de Molière nos dias de hoje?”, eu responderia de forma igualmente medíocre: “Toda!”
Mas só o faria porque estou a fazê-lo no CITAC. E as coincidências que advém desse facto são demasiadas para poder passar por cima delas.
Tal como Elisa e Cleanto sofrem uma “severa economia” às mãos do progenitor e protagonista Harpagão, que substitui a família pela propriedade como objecto do seu afecto, também esta turma deste Curso de Iniciação Teatral do CITAC sofre as consequências de ser a primeira depois das “faustosas” comemorações dos 50 anos desta instituição. Consequências essas que vão muito além das económicas, mas que, sobretudo, impõem a este exercício, e a este momento que vivem os 15 futuros novos “Citaquianos”, a questão da Pós-História.
Este é o grupo fora do livro comemorativo e portanto fora da História.
Assim, é também fora da narrativa de Molière que se encontra este exercício.
Como sinal de reacção contra a velha ordem e o poder paternal (que vai para além do seu significado primordial e familiar), tal e qual como duas referências mais que presentes aqui: Johny Rotten dos The Sex Pistols a uivar God Save The Queen, ou Laura Palmer, assassinada pelo próprio pai, emergindo morta das águas, para fazer justiça.
É definitivamente fora da “Caixa Preta” que sempre estivemos.
Tudo que está neste espectáculo/exercício vem dos novos “Citaquianos” e das suas sugestões, do seu despudor em atacar o texto (e atacar é herança do Johny Rotten também), dos comentários que foram fazendo, das conversas que fomos tendo…
O que está aqui são as impressões digitais destas 15 pessoas (+ eu) sobre o texto de Molière. Umas dedadas brancas muito sujas, reactivas, inconsequentes e anacrónicas.

Ainda assim, e apesar de toda esta “sujidade performática”, acredito piamente que o seu título (O Avarento de Molière), mais do que justo, é seguramente literal. Aqui rói-se até ao tutano qualquer ideia unidimensional de personagens, respeito ao autor, carpintaria teatral ou coerência narrativa… Tal como não conhecemos a totalidade da vida, desconhecemos a totalidade de “todo O Avarento” ou de “todo o Molière”.
E para mim, o Teatro é assim mesmo, um “monstro mutante” esfomeado, ao mesmo tempo vítima e verdugo da “severa economia” por um lado, e da “incompreensível ressaca” por outro.

Pedro Penim, 26 de Março de 2007


A intriga:

Valério, jovem separado da família, após certas perturbações sociais, salvou Elisa do perigo de morrer afogada. Apaixonado pela jovem, resolve vir colocar-se como mordomo do pai desta, Harpagão, que quer casar sua filha com outro homem. Cleanto, irmão de Elisa, ama Mariana, que por sua vez circula entre pai e filho.
É sobre este fundo de intriga amorosa que nós vemos a projecção desse vício medonho: a avareza.


Ficha Técnica e Artística

Direcção Geral: Pedro Penim

Texto: Molière / CITAC 07 / Pedro Penim

Intérpretes: Ana Linda / Cheila / Dana Rodriguez / Filipa Rafael / Gil Mac / José Carlos Pereira / Li / Magui / Männ / Maria Inês Cruz / Pedro Fernandes / Su / Talita / Tessa / Zéquinha

Produção: CITAC 07
Produção Executiva: Ana Aidos
Desenho de Luz: Alexandre Mestre / Pedro Penim
Design Gráfico: Gil MAC
Design: Inês Cruz
Operação de Luz: Alexandre Mestre / Ana Aidos
Operação de Som: Pedro Penim / Diana Meliciado
Agradecimentos: Dirty Pig / Funerária São Sebastião / Alexandre Mestre / Diana Meliciado / Luís Carvalho / Alberto Fernandes / Gustavo Pereirinha / A Escola da Noite / Teatro Praga / Máfia / ACERT / GEFAC / TEUC / Capitão / Ruy Malheiro / Patrícia Frade / Daniela Seixas / Joana Abelho / Nelson / Isabel Festas / Tiago Pereira / João Salavessa / deus / Molière / a todos os formadores / Pais e Filhos…

Workshop O Avarento - CITAC

Dias 29, 30, 31, 32, 33 e 34 – 23/03 a 28/03

Não há nada a fazer. Por muito que se defenda a questão de que o discurso é fundamental e que a ruína do teatro em relação às outras artes advém parcialmente da falta dele (e eu próprio ainda ontem o fiz num debate no Bar da Associação Académica por ocasião do Dia Mundial do Teatro), não há reflexão teórica que aguente a pressão da estreia.
É assim mesmo. Engole-se em seco a teoria. E em compensação fica-se com as unhas pretas de passar cabos e arrastar cadeiras.

O ensaio geral acabou há três horas, e como diz Marina Abramovic:
“One thing I hate is when people come up to me after a performance and want to engage in a deep conversation when all I want to do is have an ice-cream and do nothing.”

Também poderia pôr a sugestão do Johny Rotten para a mesma situação. Mas hoje estou bastante púdico.

A estreia do exercício é já amanhã. Ficam imagens de ensaios.
Estes diários do CITAC acabam aqui.
Esperam-se conclusões nos próximos tempos.

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Workshop O Avarento - CITAC

Dia 25 – 19/03

E começou o countdown.
O CITAC está branco.
Não há lamentos.
Mas há polémica.
O cartaz genial que o Gil concebeu, afecta algumas mentes mais puritanas.
HELP!

Dia 26 – 20/03

SEX PISTOLS - "God Save The Queen"

God save the queen / The fascist regime
They made you a moron / Potential H-bomb (…)
Don't be told what you want / Don't be told what you need
There's no future, no future, No future for you
God save the queen / We mean it man
We love our queen / God saves (…)

Oh God save history / God save your mad parade
Oh Lord God have mercy / All crimes are paid
When there's no future / How can there be sin
We're the flowers in the dustbin / We're the poison in your human machine
We're the future, you're future (…)

No future, no future, No future for you
No future, no future, No future for me
No future, no future, No future for you
No future, no future
For you

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Dia 27 – 21/03

Dia de rescaldo.
Retoma-se a actividade interrompida no dia anterior.
Temos jornalistas a ver o ensaio e a fotografá-lo. Temos o Alexandre que vai tratar da iluminação a ver o ensaio. Temos ex-Citaquianos a ver o ensaio. As suas reacções oscilam entre as risadas e o “isto está muuuuito atrasado”.
A páginas tantas expulsamos toda a gente da sala, porque o Zé e a Li precisam de gravar a sua cena, a sós.
Lá fora surgem as perguntas por parte de alguns dos alunos, perguntas que eu já esperava há muito.
Qual é o tema do espectáculo? O que é significa cada cena? Porque é que não fazemos personagens? Devia haver mais fisicalidade!
Late questions.
Tento dar várias respostas e reafirmar que não há nenhuma certa.
Entretanto também os jornalistas vão fazendo perguntas cá fora aos actores e a mim.
Questionism Time!!!!!

Voltamos à sala.
Vemos a filmagem.
Adoro. Ponto.

Dia 28 – 22/03

Dia de refazer cenas alteradas. O que a uma semana de se estrear o exercício é basicamente um suicídio. But suicide is painless…
Revemos uma das cenas e confirmo neste exercício mais uma citação ao Fire Walk With Me do David Lynch: a sequência arrebatadora da discoteca, onde Laura e Donna se divertem numa longa “loud night club scene”, e em que os seus diálogos são completamente incompreensíveis.

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Laura Lives!

No ensaio da noite fazemos as cenas da Santa Margarida, que está a decorar um papel que não é o seu.

Workshop na E.S.T.C.

1ª sessão

A bordo do Helena Rubinstein depois da diseuse Patty ter actuado no S. Luiz.

LADO A

Ela (a berrar) – VAMOS FAZER COMO ELES LIAM.

Ele - Hihi, que horror.

Ela – Primeiro que tudo, quantos achas que vão desistir?

Ele – Ahhh, bastantes. (Pausa) Eu acho que vão desistir bastantes.

Ela – Mas por que achas que eles estavam à espera de fazer coisas, de a coisa ser mais prática, n’é?

Ele - Sim, é sempre um bocado aborrecido quando estás sentado só a falar.

Ela - Mas sabes que eu senti que alguns estavam contentes por também terem esse espaço. Havia pessoas que... mesmo aquele miúdo que ficou fodido porque não estava a perceber nada, e dizia que achava que não ia perceber nada dos nossos espectáculos.

Ele - Sim.

Ela - Que de repente aquilo também era libertador, eles poderem dizer exactamente o que é que achavam. (Pausa) Não sei se calhar é inocência minha. Naiveté.

Ele- Não, eu acho que sim. Mas... Primeiro eles estão todos cansados, não é, têm aulas durante o dia.

Ela – Pois.

Ele - Portanto, chegar ali e estar a puxar pela cabeça deve ser hiper-cansativo.

Ela - Pois deve, pois deve.

Ele - E depois nós somos completamente caóticos, a falar misturamos as coisas, e estamos completamente codificados, o que imagino que seja às vezes difícil de entrar. Agora... pois não sei. Vamos lá a ver. Eu acho que vão desistir bastantes pessoas. Já por experiência própria, normalmente desiste muita gente.

Ela - Pois. A mim, acho particular, fez-me um bocado confusão, que a maior parte deles não conhecesse o nosso trabalho. Não por não conhecer, mas como é que tu te inscreves num workshop com uma companhia que não conheces o trabalho. O que é te leva a ir lá.

Ele - Eh pá, a escola também tem um horário muito grande e não possibilita ver muitas coisas. E também não somos uma companhia que está aí out there. Não é?

Ela - Sim

Ele - É preciso andar a procurar...

Ela - A questão nem sequer é eles terem visto o trabalho, isso acontece, é normal. Eu também fiquei, pá, o primeiro espectáculo do Teatro Meridional que vi foi há um ano. O que me faz espécie é: como é que então vais fazer um workshop com essas pessoas? Porque pode-se dar o caso...

Ele - ...Isso é bom. Porque é tipo. Podes estás a conhecer uma coisa completamente diferente.

Ela – Pois, sim, sim, de facto.

Ele - Agora, por exemplo. Eu contei alguns fatos de treino.

Ela - Sim roupas para para... para corpo, sim.

Ele - Isso é, é, não sei, é....

Ela - Pois mas se calhar também tem a ver com o facto de não conhecerem o nosso trabalho.

Ele – Sim, sim, sim. Mas mesmo conhecendo o trabalho, por exemplo, ah, havia aquele tipo que acha que o nosso trabalho é uma coisa completamente, que é um trabalho muito formal. Que assenta muito na plasticidade. Que é.... pronto é bom as pessoas também verem isso. Mas não, não é... não é isso. Obviamente que os espectáculos são muito físicos. Tu vês o Private Lives, olha agora este que fizemos em Colónia, era completamente excessivo fisicamente.

Ela - Sim

Ele - Só que não trabalhamos de todo, não temos aulas de corpo. Se calhar infelizmente. Vamos trabalhando com o corpo que temos.

Ela - Pois era aquilo que lhes dizíamos. Levantamo-nos das cadeiras já muito tarde. Não sei...

Ele - Pois, mas uma coisa é compreenderes, outra coisa é sofreres.

Ela - Como assim?!?

Ele - Uma coisa é compreender que se fala muito, e outra é sofrer horas e horas de conversa.

Ela - (Com ritmo e melodia) Pois pois pois pois pois pois pois pois pois pois....

Ele - E é muito mais complicado, isso.

Ela - Olha estou cheia de expectativas para saber quantos resistem. E quando eu saí para ir à casa de banho, depois daquele tipo que disse que não percebia nada, e que se estava a ir embora, sabes qual é???...

Ele – Sim.

Ela - ...estive a falar com ele e disse-lhe, olha se achares que isto às vezes é muito violento e que vamos muito rápido e que saltamos feitos loucos de umas coisas para as outras, e se tiver a dar um nó na tua cabeça diz para pararmos, para explicarmos, mas por favor não desistas. Não desistas só por achares que não és capaz. E ele, Não, não porque eu também estou farto que me digam que ainda não está na altura de perceber determinadas coisas.

Ele - ESTAMOS SEMPRE NA ALTURA, ESTAMOS SEMPRE NA ALTURA DE PERCEBER AS COISAS.

Ela - Eu gostei da atitude dele. De não desistir e de mandar vir...

Ele - Pois porque isso faz parte. Ninguém pode ficar à boleia. Porque isso existia muitas vezes quando estava em exercícios na escola eu ficava à boleia, não estava a apanhar nada.

Ela – Pois. Ele - Era encenado. Basicamente. Olha que eu acho que são só táxis aqui. Não, não são nada. E claro que há sempre uma tendência de haver pessoas que controlam mais, umas que controlam mais o discurso, outras que controlam mais aaaa...

Ela - Sim, mas isso há sempre. Ainda por cima num grupo tão grande muito facilmente os que são mais, ó pá, os que são mais espevitados, ou os que têm a… a… e nota-se que uns têm mais facilidade em entrar no discurso. Pessoas que já fizeram outras coisas antes da escola. Tem a ver com a idade e com a experiência também. Eh pá, fiquei contente com o gajo.

Ele - Sim é importante cada um descobrir o que é que pode proporcionar para um determinado trabalho.

Ela – Claro.

Ele - Porque normalmente isso não acontece. Normalmente tens um ponto de vista geral e tu encaixas-te nele. E é bom, tipo, cada um ter as suas coisas. Ter as suas ideias. Pronto, mas eu acho que a plataforma de conhecimento geral é ainda muito académica. Longe e distante. Portanto eu não sei na verdade, se muitas das coisas que dizemos são compreendidas. São ouvidas, mas eu acho que são compreendidas de uma forma completamente díspar daquilo que são na verdade.

Ela – Pois, a conversa da desconstrucção ontem.

Ele - Pois, e às vezes também entramos em loop nas coisas. Na verdade, nós também não temos certezas nenhumas. São só teorias que nós.... vamos concretizando...

Ela - Altamente mutáveis e mutantes. Não é, que é...

Ele - Pronto, eu acho que também era bom, se calhar no fundo, toda a gente ler o Avarento. Porque só através daquelas cenas...

Ela - (Pigarreia)

Ele - ...não me parece que tenhamos muito material, suficiente. Pronto o Zé também vem na Quarta-Feira. Talvez traga cenas do texto dele. Mas é muito giro isto. Enquanto líamos....

Ela – Sim, sim, sim...

Ele - ...pensava sempre no texto do Zé e no paralelismo e... como é completamente diferente de alguma forma.

Ela - Sim, é muito diferente de facto, mas... sentes que as raízes são as mesmas.

Ele - Sim, mas a tradução do texto dele é melhor que esta tradução do Molière. (Risos Ela +Ele)

Ela - Achas que ele traduziu bem o texto dele?

Ele - Acho que sim

Ela - Eu acho que ele é óptimo. ZÉ TU ÉS ÓPTIMO. UM ÓPTIMO TRADUTOR DE TI.

(+ Risos)

Ele - Também estou um bocado à toa com o texto. Não sei muito bem. Espero que eles comecem mesmo a propor coisas para o espectáculo. Porque nós não vamos propor nada.

Ela - Eu espero principalmente que eles fiquem com vontade de tomar rédeas da coisa. Mesmo que naturalmente as propostas às vezes não sejam, não é certas que eu quero dizer, não sejam tão... afirmativas, nem tão seguras da parte deles, mas que tenham mesmo vontade de fazer daquilo uma coisa deles. E acho que o que era fixe era conseguirmos isso. Claro ajudá-los no que pudermos, e ir orientando daqui e dali, mas sentir-se de facto, percebes, que aquilo é deles.

Ele - Sim, mas mesmo por exemplo, eles sempre que estavam a discutir, acabavam a olhar para nós quase como se nós tivéssemos a explicação, ou fizéssemos o consenso da coisa.

Ela - Sim, mas isso é uma coisa natural...

Ele - Mas não pode ser…/ Eles é que têm de arranjar o consenso...

Ela - Pois não pois não..../ Com certeza que não..... Mas eles se calhar não estão habituados que seja assim. Vais fazer um workshop e estás à espera que te seja ensinado uma técnica ou um modo ou um.... blahhhhhhhh

Ele - Por isso é que eu estava a dizer, mesmo quando lhes dizes que não temos uma técnica, ah, aproximamo-nos das coisas aos poucos, ah, isso é fácil de ouvir, mas no fundo de entender, ou de sofrer...

Ela - Na praxis tu dizes...

Ele - ...é muito complicado. (Longa pausa)

Ele - Mas eu acho que vai desistir muita gente, eu acho que vai desistir muita gente.

Ela - Pois talvez. Provavelmente.

Ele - Se calhar também deveríamos fazer uma espécie de uma lista bibliográfica curta.

Ela - Para eles poderem consultar. Mesmo que não seja para agora. Mesmo que seja para a vida.

Ele - Sim para a vida.

Ela - Isso podia ser interessante.

Ele - Mas nota-se por exemplo que eles têm uma formação muito melhor agora do que nos meus anos. Têm mais questionamento em relação às coisas, por exemplo.

Ela - Isso é bom. Sim, mas ainda assim sentes que as coisas existem de uma forma muito académica.

Ele - ...Por exemplo, já encaram as coisas da performance como já fazendo parte do universo teatral. Continuam a achar que historicamente ainda há diferenças, e há diferenças, mas ainda assim já a aceitam como fazendo parte do teatro.

Ela - Já não sectarizam tanto. Queres dizer com isso que há esperança para as novas gerações?

Ele - HÁ ESPERANÇA PARA AS PRÓXIMAS GERAÇÕES.

Ela - (Gargalhadas). Eu fiquei muito contente ontem. Ia assim com um bocadinho de medo. Mas fiquei contente. Bom, acho que levaram com a bomba pelos cornos abaixo, não, aquilo também foi pum pum pum toma lá toma lá toma lá, toma lá o Deleuze, toma lá mais isto, toma lá toma lá toma lá...

Ele - E não levámos metade das coisas...

Ela - Pois bem sei...

Ele - Ainda falta muita...

Ela - Bem sei...

Ele - Não vamos trazer, mas pronto, ainda falta muita, não se pode trazer tudo.

Ele - Claro que não. Nem sequer podemos ter essa pretensão de em duas semanas... podes dar assim umas luzes do que é que a malta anda a pensar, whatever that means...

Ele - Ou se a malta anda a pensar...

Ela - Pois ou não, ou talvez, tem dias... Mas achei.... E há uns mais caladinhos, não é, que não abriram a boca...

Ele - Pois mas esses temos de puxar mais, para falar. As pessoas têm de discutir, não podem ter medo de discutir. Eles é que têm de encontrar soluções para as coisas, não somos nós...

Ela - Pois claro André, mas isso também deve ter a ver com fragilidades...

Ele - Nós já somos institucionais...

Ela - Que tristeza... Coisa tão triste de se dizer...

(Historieta cortada pelo lápis azul)

Ela - Há fibrosa. Há fibrosa. Isso é bom. Agora é perceber onde é que isso bate nos outros. Porque há uns que claramente vês que se expõem mais, porque se dão mais à conversa, agora é isso que tu dizes, é perceber nos outros onde é que a coisa bate, e o que é que lhes interessa, e o que é que andam a pensar, se andam se não andam, o que é que lhes apetece fazer de facto. Gosto de pensar nisto como: estamos a criar desejos de autonomia.

Ele - Sim é exactamente isso. Exactamente isso. Eles têm de ser autónomos, têm de ser absolutamente autónomos. Não podem defender mais nada. Têm de ser autónomos.

Ela - Sinto-me num programada da Bárbara Guimarães. Assim a conduzir e a falar com o maestro.

Fim do Lado A

LADO B

Ele - Dizia eu que se calhar era mais fácil ter escolhido o texto do Zé.

Ela - Pois, o Molière é mais rico, no sentido em que, (inglês com sotaque russo) ZÉ I LOVE YOU, YOUR TEXT IS GREAT, mas é mais rico no sentido: tu perceberes onde é que eles entram em falácia. Percebes... Pois porque era aquilo que dizias, agora o Avarento é o ministro, nesse tipo de correspondência fajuta. Dar-lhes-á mais trabalho no sentido... até porque a informação que eles têm do Molière vai-lhes pesar de alguma maneira. E tudo isso são preconceitos teatrais. E como é que tu combates esses preconceitos. Era a história da Macha de verde fluorescente. Eu não tenho problema que ela vá de verde fluorescente. Mas porquê?? Porque é que há de vir de verde fluorescente?? Só porque é a antítese do preto?

Ele - Pois pois pois. É a forma, é sempre forma. Eles têm de largar a forma. Têm de perceber que a forma e o conteúdo são duas coisas que funcionam em conjunto. Não pode ser só uma coisa, não pode ser só forma, ou um conteúdo mínimo. Não tem de ser um conteúdo máximo e uma forma assim-assim. QUALITY NO, ENERGY YES.

Ela - YEAH. (Pausa) Acho que eles vão ficar loucos quando chegar à fase do eu quero fazer xis, e nós com os porquês, queres fazer mas porquê, explica-me lá. Aí vai ser a demência. Acho que aí vai ser uma zona dura. No sentido em que queres por a Macha de fluorescente, está óptimo, agora porquê??

Ele - Sim, devemos trabalhar num sentido mais prático mas sem deixar o lado da conceptualidade.

Ela - Sim, nunca nunca.

Ele - Porque senão cometemos um erro enorme que é deixar fazer... fazer. Temos que encontrar sempre a plataforma de entendimento anteriormente ao fazer. Não é, ah agora vamos lá fazer o Molière. Se não há coisas entendidas não podes estar a fazer o Molière.

Ela - Não podes. Não podes saltar etapas. Senão vamos parar à zona dos equívocos. E aí não estás a ser nem fixe para eles nem para nós. Fixe no sentido em que nem eles estão a descobrir coisas novas, nem nós.

Ele - E ainda não falámos da questão do gosto. Não se discutiu o Gosto.

Ela - Ainda. Disseste bem. Aflorou-se um bocadinho mas ninguém quis pegar na coisa.

Ele – Pois.

Ela - Quando eles perguntavam, então e se quando apresentas um espectáculo se as pessoas te dizem que está mal. E que eu dizia, o pá se me explicarem porque é que está mal por a + b e o que é que está errado por a+ b, eu vou pensar no assunto, se me disserem que está mal porque eu não gosto... (pausa)... não gostas, não gostas. Também não quero, nem parece que seja a nossa missão ali, whatever that means, que é obrigar as pessoas a gostar do que eu gosto. É descobrir o que é que eles gostam, e dar-lhes ferramentas para eles defenderem o que gostam com unhas e dentes.

Ele - Eu devia estar a aprender este caminho. Este caminho não tem um carro!!

Ela - É óptimo não é?! (Pausa)

Ele - Bem uma coisa é certa, nenhum deles quer fazer Molière à la Molière. Agora a questão é, então o que fazer.

Ela - Então o que é que querem fazer.

Ele - Isso é giro, pelo menos já têm isso garantido que não vale a pena fazer aquilo de uma forma antropológica, já está garantido. Ainda assim, lutar contra o soninho, é uma coisa importante. Se calhar devíamos arranjar bandejas de café.

Ela - E Coca-Colas.

Ele - Fazer shots de café e de Coca-Cola.

Ela - Tipo nós no Discotheater? Sobrevivíamos a café e Coca-Cola?

Ele - Pois.

Ela - Da minha parte não há nada acrescentar. Expectativas para hoje. Só.

Ele - Já agora acabamos a horinha de cassete.

Ela - Sabes o que é que eu acho de valor? É que vamos conseguir comer.

Ele - Isso é de valor. São 6:39. Sabes que também durante o tempo do workshop eu ia pensando no que a Rita estaria a fazer, tanto tempo fechada, o que é que estaria a destruir?(Final censurado pelo lápis azul)


Fim do Lado B

quinta-feira, 15 de março de 2007

Reposição

de 19 a 25 de Março / 21:30
Hospital Miguel Bombarda


4 papéis, 6 actores – mas quem representa que papel?
Fazer teatro – sem conhecer o próximo passo.
Um espectáculo diferente cada noite, cada noite um espectáculo novo!

quarta-feira, 14 de março de 2007

Teatro Praga em Colónia

O Teatro Praga está desde dia 10 e até dia 18 em Colónia, a participar no Festival de Teatro Luso-Alemão, uma organização da Studiobühne.
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Sábado, dia 17 de Março 20h00
“Private Lives” a partir de Noel Coward
4 papéis, 6 actores – mas quem representa que papel? Fazer teatro – sem conhecer o próximo passo.
Um espectáculo diferente cada noite, cada noite um espectáculo novo!
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Workshop: Sexta-Feira, 16. Março, 14h - 16h
Teatro Praga, A conference/demonstration
In two hours we will discuss, analyse, observe, criticize and foresee what is yet to come, regarding the work of teatro Praga. Together with all the participants we will find ways to continue the communicability process. A conference like a workshop. A space full doubts.

Sobre o Festival:
«O nosso programa internacional com grupos convidados começou em finais dos anos 60. Desde 1982 que a de Colónia é, com seu projecto regular »Europa em Cena«, um fórum para o teatro internacional.
Do desejo de abertura a nível internacional surgiu um festival binacional, onde de cada vez participa outro país convidado. Foi há 20 anos que, conscientemente, optámos por um encontro e intercâmbio entre grupos de teatro alemães e dum país parceiro, para propiciar o ambiente de um evento internacional e multinacional. Para a abertura internacional do festival, convidámos observadores de festivais de cidades espalhadas pelo mundo inteiro, que, por sua vez, escolhem grupos de teatro para os seus festivais. »Europa em Cena« é uma semana de intercâmbio intenso sobre os modos de trabalho e, naturalmente, das produções dos grupos participantes. Estes jovens grupos profissionais de teatro, de dança, os conjuntos de música moderna e das áreas da performance e dos média encontram-se neste cruzar de fronteiras.» Georg Frank, Director

Universitätsstr. 16 a 50937 Köln
tel.: 0221 / 470 4513 Fax: 0221 / 470 5150
s-f@uni-koeln.de / www.studiobuehne.eu

segunda-feira, 12 de março de 2007

Workshop O Avarento - CITAC

Dia 24 – 16/03

Continuamos o trabalho de ontem. Principalmente com a cena de abertura do espectáculo e seguindo algumas das ideias que os citaquianos ontem puseram em cima da mesa.
Dirigir cenas com 17 pessoas poderá ser um passeio no parque para o La Féria ou para o Thomas Ostermeier (mutatis mutandi), mas para mim é abracadabrante.
Depois da cena de conjunto, passamos para duas cenas que estavam ainda num estado de esboço muito ténue. Acho que ainda não chegámos lá, em ambos os casos. São duas cenas particularmente complicadas. A primeira é a partir da Cena IV do Primeiro Acto, o momento em que Harpagão confronta pela primeira vez os filhos Cleanto e Elisa, o que na versão do CITAC quer dizer: três malucas a fazer uma cena revisteira e desbragada. A segunda é a partir das cenas 2 e 3 do Quinto Acto, o momento em que Harpagão encarrega o Comissário de encontrar o seu tesouro roubado, o que na versão do CITAC quer dizer: três malucas a fazer uma cena revisteira e desbragada. Grau de dificuldade máximo para ambas. Havemos de ir a Viana!
Entretanto: Liliana e Zé, com a ajuda da Su e da Margarida, andam a mergulhar nas fontes de Coimbra, à procura da essência do cadáver afogado de Laura Palmer. Com a ajuda de muita maquilhagem azul. No fim do ensaio vêm, molhados, mostrar os resultados.

Despeço-me da Caixa Preta. Dos 50 (eu repito: 50) anos de Caixa Preta!
O CITAC vai pintar-se de branco. Até lá os ensaios estão em espera.
It’s the end of an era!!!!
(Meu Deus! Só agora percebi que já vesti definitivamente a camisola.)
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(foto: Rodrigues)

Os diários do CITAC serão retomados no dia 19 de Março.

sexta-feira, 9 de março de 2007

ESTREIA HOJE

Gift
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um espectáculo de: André Teodósio, Andres Lõo, In-Jung Jun,
Lotte Rudhart e Romeu Runa; Cenário: Frank Imsiepen.

Dias 9 e 10 de Março
Tanzhaus NRW, Dusseldorf

Mais informações aqui.

Workshop O Avarento - CITAC

Dia 23 – 15/03

Hoje é o dia.

Vamos então à receita da “maionese modernista" (De Duve by Nuno Costa):

Ingredientes [Para 3 dl. de molho (que é como quem diz: CADA UM DOS DIAS DE ESPECTÁCULO) e para cada gema de ovo (que é como quem diz: CADA UM DOS 17 ACTORES)]:
- 1 colher de sobremesade vinagre ou sumo de limão (que é como quem diz: FRASES DOS SEX PISTOLS MISTURADAS NO MEIO DO TEXTO DO MOLIÈRE, QUE É NESTE MOMENTO, E COMO SE ESPERAVA, O GRANDE PERDEDOR DA NOITE)
- 1 colher de chá de mostarda (que é como que diz: PEIXEIRADA COMO NA FEIRA DA VANDOMA)
- 1 colher de café de sal fino (que é como quem diz: UMA CANÇÃO DA OLIVIA NEWTON-JOHN)
- pimenta (que é como quem diz: REFERÊNCIAS AO TWIN PEAKS A CADA ESQUINA)
- 1,5 a 2 dl. de azeite (que é como quem diz: TINTA BRANCA SACRÍLEGA PARA PINTAR O CITAC) ou óleo (que é como quem diz: WRESTLING! WRESTLING! WRESTLING!)

Preparação:

Numa tigela (que é como quem diz: O CITAC), e com uma colher de pau (que é como quem diz: EU), dissolva a gema (que é como quem diz: OS CITAQUIANOS) com o sal (que é como quem diz: O AVARENTO de MOLIÈRE), pimenta (ver acima), a mostarda (ver acima) e dois terços da porção de vinagre ou sumo de limão (ver acima). Deixe descansar durante 5 minutos (que é como quem diz: ENSAIAR DURANTE DOIS MESES). Adicione depois o óleo ou o azeite (ver acima) gota a gota (que é como quem diz: DE SEGUNDA A SEXTA DAS 20 ÀS 24) , mexendo sempre com a colher de pau (ver acima). Assim que a maionese começar a engrossar (que é como quem diz: AO 23º DIA), pode juntar o azeite ou óleo em maiores quantidades (que é como quem diz: ANDAR TUDO Á PORRADA!). Quando tiver a impressão que a maionese não comportará mais azeite adicione o restante vinagre ou sumo de limão e mexa muito bem até o incorporar na maionese (que é como quem diz: SE VIRES QUE HÁ MUITA MERDA, TENS DE PARAR DE VEZ EM QUANDO PARA PENSAR!). Adicione finalmente o restante azeite em pequenas porções (que é como quem diz: VAI MANDANDO CALAR QUEM ESTÁ A PERTURBAR A REFLEXÃO). Depois da maionese pronta (que é como quem diz: DIA 29 DE MARÇO), escalde com uma colher de sopa de água a ferver (que é como quem diz: RELAX DON’T DO IT IF YOU WANNA CUM) e misture-a rapidamente na maionese (que é como quem diz: DESPACHA-TE, QUE SÓ FALTAM DUAS SEMANAS!).

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Workshop O Avarento - CITAC

Dia 20 – 12/03
Dia 21 – 13/03
Dia 22 – 14/03

As cenas (12) são trabalhadas individualmente. "Trabalhar" quer dizer, resolver problemas. E criar outros.
Receio que não haja mais nada sobre estes dias de ensaio que justifique menção no blogue. E temo que este seja o “trend” dos próximos dias.
Na verdade a “urgência performativa” tomou conta da situação. Is in da house, mesmo. Como seria de esperar.
Sempre soube que estava no CITAC para dirigir um “espectáculo”. E é a esse “espectáculo” que urge agora deitar as mãos.

Os pensamentos que me vêm à cabeça neste momento têm sobretudo a ver com:

- Os materiais que vão aparecer no espectáculo vêm quase exclusivamente dos Citaquianos.
- Estou a ser completamente permeável a ideias, textos e referências que estão nos antípodas do meu universo criativo, e isso é o que me parece que está a ser realmente arriscado neste processo.
- Estou também a ser muito receptivo a ideias, textos e referência que estão dentro do meu universo criativo. Meowwww…
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- Para curso de iniciação teatral, estamos com “ambições grandiosas”.
- O exercício do 4º dia foi absolutamente definitivo para tudo o que se está a passar neste momento. E a lista de ideias que daí surgiram, está incrivelmente (e às vezes inconscientemente) a ser cumprida quase na íntegra.
- Estou a desenvolver toda uma teoria à volta da ideia que o 4º dia de ensaios é um dia em que não se espera nada (por ser justamente e apenas o 4º dia) mas é o dia em que o “universo” trata de decidir tudo pelo projecto.
- Apesar de assim contrariar aquilo que faria normalmente, sinto que o material que está nas minhas mãos carece agora de uma reflexão global e de uma “encenação” (go figure!).
- Estou definitivamente como peixe fora d´água e isso agrada-me.
- Estou definitivamente obcecado pela Laura Palmer. A viva e a morta.
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- Quero comprar a filmografia completa da Liliana Cavani.
- Quero usar frases dos Sex Pistols. E está na altura de elas aparecerem! Chega de “respeito” ao morto.
- A Liliana (não a Cavani, mas a Abreu) arranjou um caixão!!!
- Não paro de fazer futurologia e tentar imaginar se alguma coisa que está aqui irá parar ao Avarento do Teatro Praga.

Workshop O Avarento - CITAC

Dia 19 – 02/03

As duas últimas cenas são apresentadas.

Em uma frase:

Cena 1 – You were only playing love games!
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Cena 2 – “different genres ‘collide’ in a scene that, on a larger level, has no genre”
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Discussão:

Fantástico trabalho de texto na primeira cena. Estes actores estão definitivamente a dizer o que querem dizer. Tal como pretendia, para os seus, o “mestre” Cassavetes (isto entre os estaladões na cara para puxar o sentimento dos actores e os berros da praxe).
Discussão sobre: como acabar a cena. Ultimamente essas são as perguntas mais frequentes: “Como começa?” e “Como acaba?”. Ora está visto que não faço a mínima.
Discussão sobre os possíveis registos a utilizar na segunda cena. O esperado ou o surpreendente?
E vem a sugestão da noite. Do Gil, claro: THE UNDERTAKER!!!
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A personagem do wrestling que já por aqui andou nestes diários…
Ideia comprada imediatamente. Agora só nos falta o caixão.

Para a semana juntamos as cenas novas com as mais antigas.
Veremos se esta “maionese modernista” (De Duve by Nuno Costa) da marca Molière terá grumos ou será daquela boa, da que faz o Javi, com aquele azeite de acidez x.p.t.o., que não me lembro se é 0.3 ou 0.4…

No tempo que nos resta antes do fim-de-semana, corrigimos a articulação e a dicção dos actores que participam na cena que decorrerá na rua. O sotaque do Porto é sexy mas quando atinge a velocidade de cruzeiro… magoa.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Workshop O Avarento - CITAC

Dia 18 – 01/03

Uma primeira hora bastante caótica.
Hoje é mais um dia de apresentações.
Começo por chegar mais cedo, convidado que estava a participar numa sessão fotográfica de um dos grupos.
Umas fotografias no mínimo particulares. Perdi o pouco respeito que ainda tinha, digamos.
Depois percebi que me esqueci de um cabo. Fui a casa buscá-lo. Depois não foi necessário.
Mais umas confusões e lá começam as apresentações.

Numa frase:

Cena 1 – Show me what it takes to be a real rich bitch!
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Cena 2 – Paiva, Pica, Charro, Ganza, Charuto, Porro, Canhão, Pampa, Charlie, Cacete…
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Cena 3 – Pós Modernos
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Cena 4 – Coimbra by night
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Cena 5 – Num filme de Liliana Cavani
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Conversa – resumo:
Gostámos todos muito do que se conseguiu com os textos.
Algumas ideias são muito inventivas.
Subsistem os problemas técnicos na maioria dos actores.

Amanhã há mais duas cenas.

Workshop O Avarento - CITAC

Dia 17 – 28/02

Os grupos continuam a trabalhar em bom ritmo. Descompassado mas bom.
O CITAC parece um verdadeiro estaleiro. Os grupos a trabalhar em simultâneo num espaço tão reduzido provocam o caos.
Há grupos que se encostam às paredes e conversam.
Há grupos que desesperam.
Há gente pelas ruas de Coimbra a dar espectáculo.
Há grupos à procura das palavras certas.
Há gente nas “técnicas” do CITAC a tentar furar pelo meio do lixo.
Há gente no armazém do CITAC a experimentar perucas.
Há gente a vestir roupas inacreditáveis.
Há grupos que parecem padecer da tal “preguiça performativa” do Rogério Nuno Costa.
Há grupos que parecem contagiados por ideias bizarras e maravilhosas.
Há grupos a jogar playstation.
Há gente a fazer cenas em cantos.
Há gente a pedir silêncio para se poder ouvir o som abafado de uma câmara de vídeo digital.
Há grupos a lutar contra o Molière.
Há grupos a despedaçar o Molière.
Há grupos a reescrever o Molière.

Só não há grupos a aborrecer o Molière. Nem a mim.

Frase da noite: Mas o que é que não entra neste espectáculo?!
Everything but the kitchen sink.

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Podia ser o subtítulo do espectáculo.

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Matrioska
(peça infantil 6-10 anos)
de Tiago Guedes / RE.AL
no Centro Cultural de Belém
de 3 a 11 de Março 2007
3 Março > 15h30 \ 4 Março > 11h30
de 5 a 9 Março >11h
10 Março > 15h30 \ 11 Março > 11h30 e 15h30

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A nossa Matrioska, em vez de ser uma grande boneca com outras similares lá dentro (tal como a famosa boneca russa), é uma espécie de lugar que, devido ao seu dispositivo permite trabalhar dentro, fora, atrás, à frente, escondido e à vista, fazendo com que diferentes camadas da realidade se descubram umas às outras numa espécie de caleidoscópio de imagens e situações.
O que está dentro disto? O que estará atrás daquilo? O que é aquela sombra? Estará alguém dentro dela? Que língua canta esta cantora? O que se esconde debaixo desta forma?

Ficha artística
Direcção e coreografia Tiago Guedes Interpretação Inês Jacques, Pietro Romani Cenografia e figurinos Catarina Saraiva Sonoplastia Sérgio Cruz Desenho de luz Mafalda Oliveira e Tiago Guedes Produção RE.AL Co-produção Le Vivat, Armentières (França); Centro de Pedagogia e Animação (CPA) do Centro Cultural de Belém, Lisboa (Portugal); RE.AL, Lisboa (Portugal) Apoio Lusitânia Companhia de Seguros Projecto financiado pelo MC (Ministério da Cultura) / IA (Instituto das Artes)